Muna Omran escreveu

Querido Gilberto
Qdo termino um livro, que gosto muito, deixo passar um tempo, elaborá-lo ( como se diz na psicanálise) e dps escrever ou falar sobre. Deixo a emoção cessar, mas seu livro, ainda me arranca lágrimas.
Não li, devorei as primeiras 160 páginas naquele final de semana em q vc veio. Dps o ritmo foi mais lento, em funçao do trabalho, mas em uma semana já  o tinha terminado.
Até a página do profeta Zeca ( rs)´, o ritmo da narrativa nao tinha me pego pelo estômago. Até então, me fascinava não a história do Mohamed, mas a forma que o narrador contava a história da opressão do Império Otomano,e, sobretudo, pela 1a vez na literatura seja brasileira ou estrangeira, vi alguém falar claramente sobre a história d os alawitas. Isso já me fascinava, a historiadora encontrava ali, na narrativa elementos que se somavam aos poucos estudos sobre os alawitas e sua participação na expulsão dos turcos. Ao mesmo tempo a crítica literária observava estilo e outras bobagens mais.
Qdo a narrativa me pegou pelo estômago, sendo um suplício largar o livro para cumprir minhas obrigações  profissionais? Qdo Mohamed decide se casar com Aqul e a chegada de Kafa à aldeia, as armações de Aqul e de Kafa, qdo Ibrahim fica sabendo que seu filho o desonrara…enfim…a partir daí, não conseguia largar o livro. E aí a crítica literária e a historiadora já tinham ido passear e a ela, a senhora de todas as ciências, a Literatura cumpria seu grande papel: cativar um leitor.
Vi ali, em muitas linhas, a história de meu pai, a história que ouvia muitos imigrantes contarem no quintal da casa do meu avô, na rua Maia de Lacerda, enquanto escalpelavam os carneiros em dias de Ei d. Reconheci o prédio de 4 andares que Mohamed chegou, o 115 da rua do Estácio, pois qdo criança, tinha ainda muitos patrícios morando lá. A mijuez do Mohamed me fez relembrar o HAmdu tocando ou na casa do meu avô ou nas festas da sociedade muçulmana enquanto nós crianças tentávamos dar os 1os passos da dabke. Os a´taba que minha avó com outras mulheres entoavam, qdo viravam a noite preparando os almoços das festas religiosas, ressoavam em meus ouvidos enquanto lia seu livro.
De todos os autores que já li, que tratam sobre a imigração  ( Salim Miguel, Milton Hatoun, Alberto Mussa, Raduan Nassar), só um me tocou, foi o romance Nur na escuridão, de Salim Miguel, me fazendo chorar.  A esta seleção de autores posso, agora, incluir o seu livro, Mohamed, o latoeiro.
Entendi perfeitamente a reconciliação de Ibrahim  ( filho) com Mohamed, após sua morte, chorei e ainda choro qdo me lembro da cena em que Ibrahim entra no aviao, após enterrar seu pai, foram as mesmas palavras que eu disse após o enterro do meu querido baba.
O encontro de Ibrahim com Yemna, com as irmãs, filhas de Zefa, o casamento falso de Zeca com Zefa..Meu Deus, qtas pequenas histórias do cotidiano que construíram a grande história de Mohamed.
Entendi, o retorno e o apego às tradições após a morte de Mohamed, brimo, eu fiz isso, esta foi a forma que encontramos para manter o elo que nos une aos nossos queridos antepassados, de os manter vivos em nós, esta é a nossa identidade.
Adorei as receitas da Yemna, me quebraram um galho e fiz a abobrinha recheada com coalhada, não preciso mais esperar a boa vontade de minha mãe fazer e me convidar para almoçar na casa dela. (rs).
Enfim…seu livro é show…prometo uma resenha para ser apreciada e publicada na revista Tiraz, do depto de Língua e literatura árabe da Usp, e se nao aceitarem , publico na minha revista e em outras que certamente aceitarão.
O seu romance é um tributo a todos os Mohamed que vieram para o Brasil, que sempre foram os deslocados, os foras -do- lugar, aqui no Brasil e na sua terra natal, que deixaram seu nome cravado nas lembranças que constituem o Brasil.
Agradeço por ter me contemplado com a leitura desta obra.
Tenho algumas perguntas a fazer sobre a construção do livro, mas fica para um outro momento, pois será para colocar na minha revista e quero mandar as perguntas direitinho. (rs).
Brimo, parabéns….um 2010 de muito luz, muita paz, muita inspiração, parabéns pela família que vc tem, que vc criou, pela belíssima declaração de amor que vc faz a Suzana, no final do livro. Fico agora ansiosa para o nascimento do próximo livro.
Vc não pode imaginar como fico mais feliz ainda, em além de ler o livro, conhecê-lo pessoalmente, que se repita sempre. Insha´alla.
um grande beijo para vc e todos aí,
Muna

Muna Omran
Rio de Janeiro
http://www.revistaliteris.com.br

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