Como escrevi o “Mohamed, o latoeiro”

Como escrevi o “Mohamed, o latoeiro”?

O desejo de me tornar um escritor, um contador de histórias, vinha me perseguindo desde minha adolescência. Nos meus vintes, escrevia contos e historietas para o suplemento Jornal do Sinos, que vinha encartado no jornal Zero Hora. Uma década depois, escrevi alguns contos para o jornal Hamburgerberg, até quando esse excelente jornal deixou de existir. O Hamburgerberg era um jornal cultural, editado pela Fundação Ernesto Frederico Scheffel. .

Durante duas décadas e meia não escrevi uma linha sequer. Embora o sonho de escrever o meu primeiro romance me acalentasse e me acossasse por todos os lados, a batalha diária de ganhar a vida me era prioritária.   Na verdade, não queria morrer sem ter escrito o romance. Eu morreria frustrado e cobraria do Todo Poderoso lá no Paraíso. Além do mais, a professora Juracy Saraiva, doutora em literatura, durante quase três décadas, insistiu para que eu escrevesse um livro. Ela tinha lido minhas histórias no Hamburgerberg e achava que eu tinha algum talento. Professora-doutora Juracy, tornou-se, portanto, minha madrinha. Foi ela quem me empurrou para dentro do mundo da literatura..

De repente, num chuvoso dia de inverno de 2007, fui submetido a uma cirurgia e, então, surgiu o momento certo. Comprei um noutebuque e, incentivado pela Suzana, dei início às primeiras letras. 

Mas qual seria o tema?

O tema tinha que ser algo que eu dominava com certo desembaraço. Portanto, nada melhor do que algo pertinente à cultura e costumes árabes, com pitadas de história, que traçasse paralelos entre os dois mundos, sem ser crítico e nem tendencioso. Simplesmente, escrever pra narrar. Peguei emprestada a frase do Mia Couto, grande escritor da língua portuguesa, do Moçambique. A citação de Mia Couto está logo na terceira página: “Uma das mais belas funções da escrita é o convite a transgredir fronteiras. Algo se torna verdadeiro apenas porque o dizemos com saber poético.” Segui o norte do grande moçambicano. Ou pelo menos tentei.

Quando criança, eu ouvira numerosas histórias contadas pelos “patrícios” dos meus pais que visitavam nossa casa. Tive a oportunidade de ouvir muitos casos engraçados, outros muito tristes. Eles conversavam sobre a “terra” que deixaram para trás, as famílias, suas aventuras nas lides de mascates, seus dramas, suas vicissitudes e suas alegrias. Usei essa matéria prima, acrescida de alguma experiência pessoal, e comecei a montar a história.

Quando alguém pensa em imigrante árabe logo lhe vem à mente o mascate, o dono da loja de “turco”, o comerciante, o sujeito que acumulou fortunas trabalhando duro e honestamente. Ou não necessariamente. Quero dizer, a coisa mais corriqueira era encontrar um árabe mascate (quando ele recém chegava) ou que já tinha a sua loja e estava ficando rico. Mas encontrar um árabe que prestava serviços era uma raridade. Pessoalmente, em todos os meus anos de vida, conheci poucos. Um eletricista, um marceneiro, um encanador, um latoeiro, um carroceiro, um caminhoneiro e um motorista de lotação. E eram pobres, comparando com os ricos comerciantes.

Então, decidi escrever sobre o latoeiro, uma profissão estranha à maioria da população brasileira que tem abaixo de sessenta anos. Além do mais, muitos amigos e leitores me perguntavam o que fazia um latoeiro. Eu explicava. É o sujeito que andava pelas ruas da cidade tilintando sobre uma chapa de metal, geralmente uma frigideira, anunciando os seus serviços às donas de casa. Ele consertava panelas, colocando novos cabos e novos fundos de zinco ou alumínio, fazia canecas das antigas latas de óleo, consertava regadores, leiteiras, bules, etc. Carregava uma caixa de ferramentas muito pesada, cheia de chapas de zinco, alumínio, ferro de soldar, fogareiro, macete, barras de estanho, e uma dúzia de outras ferramentas. “Seria um funileiro?”, perguntavam os leitores do Rio Grande do Sul. “Quase”, eu respondia. Há uma sutil diferença entre um funileiro e um latoeiro. O funileiro é mais aprimorado. Faz e instala calhas, tem equipamento e maquinário mais sofisticados e geralmente está instalado em sua funilaria, atendendo sua clientela. . Já o latoeiro mantém o seu espírito nômade. Cada dia em um bairro ou numa rua. Não gosta de ficar atrás de um balcão. Mas nada impedia um latoeiro de ser alçado a um nível social mais superior, tornando-se um funileiro. Assim era em Curitiba, assim foi com Mohamed.

O nosso herói, ou melhor, o anti-herói, se vê, repentina e circunstancialmente, arremessado a um mundo diferente. Um adolescente camponês, pastor de cabras, flautista tocador de “mijuez”, cujo mundo estava circunscrito a meia dúzia de aldeias encravadas nas íngremes Montanhas Alauítas da Síria, defrontava-se com um gigantesco país católico, cujos costumes se chocavam com os dele. A questão para Mohamed era se devia comer ou não carne de porco; devia ou não beber uma cachacinha com os caboclos. Em seguida, confrontava-se com as mulheres do país que, embora estivéssemos ainda na década vinte do século passado, gozavam de liberdades muito amplas em comparação com as mulheres do seu país de origem. Outros confrontos, outros dilemas e dúvidas assolariam a vida de Mohamed.. Casar ou não numa igreja, batizar ou não um filho. Nosso anti-herói sofreu, amou, divertiu-se, criou filhos, conflitou-se, envelheceu, apaziguou-se e abrasileirou-se.

Sobre a massa, coloquei uma pitada das minhas experiências pessoais, tais como as histórias que ouvia, na minha infância, narradas por meu pai e seus amigos, minha meninice no Líbano, meu serviço militar e minha ida à Faixa de Gaza como soldado do 13º Batalhão de Suez. Busquei um bocado de pesquisa sobre a Curitiba de antigamente.

Escrevia nas madrugadas, nos fins de semanas, nos feriados, nos sábados e domingos. Escrever tinha se tornado uma obsessão.  Estava cada vez mais envolvido pela história, arrastado nela pelas mãos do nosso anti-herói. E a professora Juracy a analisar e a criticar e elogiar o texto.

Finalmente, em fevereiro de 2009, a senhora Lourdes Magalhães, diretora da Primavera Editorial, e sua equipe leram os meus originais e gostaram.. Em setembro de 2009 “Mohamed, o latoeiro” foi lançado em São Paulo, no aniversário da editora, com uma noite de autógrafos..  “Mohamed, o latoeiro” foi o bolo de aniversário.

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Categorias: Mensagens do autor | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Como escrevi o “Mohamed, o latoeiro”

  1. Bernardo Galegale

    Prezado Gilberto,

    Gostaria de entrar em contato a respeito da adaptação do livro para o teatro. Em que email devo entrar em contato?

    Meu email é bernardo.galegale@gmail.com

    um abraço

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