Arquivo do mês: agosto 2010

Quem são os maronitas

Maronitas, quem são eles?

Antes do advento do Islã, os árabes se dividiam em tribos, cada uma com suas crenças, com seus dialetos (a língua árabe pré-islâmica tinha enormes variações de vocabulário e sintaxe), com seus costumes e seus valores.

A maioria das tribos era politeísta, como era o caso da tribo de Qoraish, do Profeta |Mohamed, estabelecida em Meca e arredores. Mas havia tribos que professavam a fé judaica, grande parte delas estabelecidas nas cercanias de Medinah. Mais ao norte da Península Arábica, a maioria das tribos era cristã. Portanto, o cristianismo existe desde o seu nascimento no meio dos árabes.

O cristianismo praticado pelos povos que viviam no Oriente Médio na época em que o Islã conquistava, aos poucos, toda a região, tinha várias correntes. A ortodoxa grega e a católica siríaco-aramaica.

A igreja siríaco-aramaica tinha sua sede em Antioquia, na Síria e seus seguidores se espalhavam pela região litorânea de toda a Síria. No século 5º da era cristã, um monge da igreja siríaca isolou-se nas montanhas em busca do pleno conhecimento de Deus, através de uma vida despojada, simples e contemplativa. Atendia aos pobres, fazia curas e ensinava-lhes as orações. O nome desse monge era Maron.  Seus seguidores foram aumentando e passaram a ser chamados de maronitas.

A Igreja Maronita mantém até hoje a língua siríaco-aramaica em seus rituais. Houve um período em que eles latinizaram seus ritos, seguindo as instruções do Vaticano, mas no final do século 15º decidiram voltar à sua língua de origem.

Após o advento do Islã no século 7º, que conquistou toda a Síria, os maronitas se refugiaram nas montanhas, principalmente no Monte Líbano que, treze séculos mais tarde, seria fracionado e formaria o Líbano de hoje

Durante as cruzadas os maronitas ajudavam os cristãos europeus no seio dos territórios muçulmanos, formando uma verdadeira 5ª coluna. Foram eles que conduziram os soldados europeus da primeira cruzada até Jerusalém.

Os maronitas já participaram de inúmeras guerras em sua existência. Na guerra civil libanesa que se iniciou na década de setenta do século passado, dividiram-se em duas facções. Uma, o Partido da Falange, de direita, de orientação fascista, apoiou Israel. Inclusive, seus soldados participaram junto com os israelenses no célebre massacre de Sabra e Chatila, onde milhares de palestinos foram assassinados. A outra facção, representada pelo ex-general Michel Aoun, em episódio recente da história do Líbano, aliou-se ao Hisbullah.

Os maronitas são considerados árabes? A turma da direita, da Falange, prefere dizer não. Gostam de se proclamarem fenícios. Já a turma do centro e da esquerda, ou seja, os seguidores  do general Michel Aoun e da família Frangieh (muito forte no norte do Líbano), consideram-se  árabes cristãos.

Mas, independente do que pensam os maronitas, o fato é que eles são linguisticamente árabes.

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Manteiga rançosa? Como assim, manteiga rançosa?

– Manteiga rançosa? Como assim, manteiga rançosa?

Foi assim que a Cleonice, a porteira do prédio onde tenho a minha escola perguntou, assustada, com cara de nojo. Ela tinha lido as receitas da Yemna, uma das personagens principais do meu romance “Mohamed, o latoeiro”.  Estranhou que a irmã do Mohamed fritava os ovos, cozinhava arroz, trigo, fritava berinjelas e abobrinhas fatiadas e outras iguarias mais com manteiga rançosa.

– Manteiga rançosa a gente joga fora! – disse a Cléo.

Expliquei  para ela que, na verdade, a manteiga rançosa que eu mencionei no romance é exatamente a manteiga clarificada. Ou seja, a ghee,  utilizada na cozinha sul asiática, um pouco diferente da “beurre noisette”  da culinária francesa, que deixa os sólidos da manteiga queimarem levemente, dando-lhe um leve sabor de nozes.

No Oriente Médio, a manteiga clarificada é chamada de “samna”.  Portanto, a partir de agora vamos chamar a manteiga clarificada de samna.

Você pode fazer a samna em casa, se quiser. Veja como a tia Yemna me ensinou:

Compre duas barras de manteiga sem sal, de boa qualidade. Ponha dentro de uma panela e, com o fogo bem baixo, o mais baixo que puder, deixe derreter. Tenha paciência e não saia do lugar. Ou seja, não vá fazer outra coisa enquanto a manteiga derrete. Você pode se distrair e queimar os sólidos que ficam em baixo. Não é esse o nosso objetivo.

Enquanto a manteiga vai derretendo, vai se formando uma espuma em cima. Com muito cuidado, você vai tirando essa espuma com uma colher ou com uma espátula. Daí vai aparecer a manteiga derretida e transparente, permitindo ver uma camada leitosa em baixo. Vamos tirar essa camada leitosa – que são os sólidos da manteiga. Como? Simples: Afixe um pano, desses tipo gaze, para filtrar, sobre o pote em que você vai guardar a samna. Aos poucos, vá derramando a manteiga liquefeita através daquele pano filtro, para dentro do pote. Você vai notar que os sólidos da manteiga – aquela camada leitosa – vai ficando no pano e só passa a parte derretida bem clara. Quando ela esfriar e se solidificar, você tem a samna.   

A perda que você tem do total da manteiga comprada é de mais ou menos 40 por cento.Ou seja, se você comprar duas barras de manteiga de 200 gramas cada, totalizando 400 gramas, você acabará tendo ao redor de 240 gramas de samna.

Frite, cozinhe, faça doces com a samna. Ou, simplesmente, passe num pãozinho bem crocante.

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