Arquivo do mês: outubro 2010

Ciranda Literária em Morro Reuter

Ciranda Literária em Morro Reuter

Cidadezinha simpática e graciosa, essa Morro Reuter!

Incrustada na subida da Serra Gaúcha, tal qual uma valiosa pepita de ouro agarrada ao seu leito natural, o viajante apressado mal a percebe. Deve ter ao redor de seis mil habitantes, onde todos se conhecem pelo primeiro nome. Mas você é aliciado pelo aroma das cucas, dos bolos, dos strudels e das comidas. Depois de ser seduzido, você entra na cidadezinha de boneca, contempla-a, apaixona-se por ela e fica com vontade de não mais sair de lá.

Pois não é que essa pequerrucha cidade Morro Reuter é autora de um feito de gigantes! Desde a sua emancipação ela vinha promovendo a sua Feira do Livro.  Neste ano, o nome dado ao evento literário e cultural virou Ciranda Literária. Mudou o nome, mas não mudou a importância do acontecimento e a seriedade com que o município trata a questão educacional e cultural.

A administração da cidade dá uma tamanha relevância ao evento literário que, na entrada da cidade, tem um monumento ao livro. Uma espécie de totem de livros, cuja altura vai aumentando na medida em que os escritores vão tendo ali postos seus livros em concreto. Espero um dia merecer tal honra. Só para citar. não é à-toa que Morro Reuter é conhecido como o município de analfabetismo zero.

Eu já tinha participado da última Feira do Livro em 2009, quando fui calorosamente recebido pela Secretária de Educação e Cultura, a professora Cristiane Hinterholz, e pela professora Andréia Ternus e demais componentes da dedicada e laboriosa equipe de professores.  Senti o gostinho e quis voltar.

Agora, entre 10 a 15 de outubro deste ano, o evento cultural e literário, independentemente do nome que se lhe dê, foi um feito maravilhoso, bonito e bem sucedido.

Tive dois dias de prazerosos encontros com escritores gaúchos e de outros estados. Também tive a alegria de reencontrar a minha querida amiga e mestre e – vejam a coincidência – patrona da Ciranda Literária de Morro Reuter, a professora-doutora Juracy Saraiva. E de novo, fui recepcionado com um imenso carinho pela Secretária Cristiane, pela professora Andréia e pelos demais professores do município. Uma hospitalidade soberba! Que mais posso desejar?

Mas o que este modesto escrevinhador e contador de histórias foi fazer na Ciranda Literária de Morro Reuter?  Fui convidado para trabalhar; mas eu estava lá me divertindo. Tive bate-papos sobejamente alegres com crianças de dez anos a adolescentes, prestes a terminarem o segundo grau. Fui estimulá-los à leitura. Aprendi com eles mais do que eles comigo.

Participei, também, em debates e bate-papos informais com outros escritores. Foi um regozijo total. Tantas cabeças iluminadas emitindo opiniões sobre literatura, falando com cátedra, instigando, questionando. Nessa troca de ideias aprende-se muito e eu fui um aluno privilegiado.

Só mais um curto parágrafo para encerrar: Fiquei tão fã de Morro Reuter que sonho, um dia, em vê-la como a Paraty gaúcha, reunindo escritores brasileiros e estrangeiros, numa gigantesca efeméride, com concursos literários, lançamentos, debates e tudo o mais. Quem sabe?

Vocês verão o videozinho aí a ilustrar este meu texto com as fotos do evento.

Gilberto Abrão

A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

Uma das coisas mais belas e gratificantes para um escritor, especialmente se ele é novato, é perceber que seu leitor torna-se um amigo interagente. É o meu caso. Fico feliz que meus leitores têm participado de uma forma interativa, discutindo o caráter das personagens, condenando ou elogiando umas e outras, comentando as passagens, criticando, indo à busca, inclusive, de fotos para comprovar a existência – ou não – de algum cenário do romance. Foi o que fez a minha leitora e agora minha amiga Samira, de Curitiba.

Samira tem sido tão especialmente participativa que se eu a tivesse conhecido antes de terminar o Mohamed, o latoeiro eu, certamente, teria acrescentado mais um episódio no romance.

Foi um quebra-quebra que aconteceu em Curitiba no fim da década de 50. O governo federal tinha lançado a campanha do “seu talão vale um milhão”. O consumidor reunia suas notas fiscais de compras, era-lhe dado um número ou vários, e com eles o cidadão concorria a um prêmio de um milhão de cruzeiros.

Em um modorrento sábado à tarde, um comerciante árabe se recusou a dar uma nota a um policial militar a paisana que comprou um pente de plástico. O custo do pente era abaixo do valor estipulado pelo governo para extração de uma nota fiscal. Portanto, o árabe se viu no direito de recusar o fornecimento da nota. A discussão começou e os dois acabaram brigando. Não sabendo que o freguês era um policial, o árabe, um homem grande e forte, agarrou o policial, levantou-o e o atirou na calçada. Foi o estopim para a grande “revolta” dos brasileiros contra os “turcos”. Ou poderíamos chamar esse episódio de “A guerra do pente de plástico”. Em poucos minutos, turbas iradas, às centenas, começaram a apedrejar, quebrar e saquear as lojas dos árabes em Curitiba. Inclusive alguns árabes mais modestos, que vendiam frutas em carrinhos, tiveram seus cabriolés virados de ponta cabeça e as frutas roubadas ou estragadas. Ai do árabe se ele abrisse a boca. Tinha que se afastar do local e deixar os revoltosos fazerem o serviço. Foram três dias de terror para a comunidade árabe. O levante só se amainou com a severa intervenção da PM.

Mas Samira continua a reescrever comigo os adendos ao Mohamed, o latoeiro. Eis que ela me surpreende e me manda uma foto de 1948, da Praça Tiradentes, com a estação dos bondes. Notem que a a primeira loja da esquerda para a direita é a famosa Confeitaria Damasco. Foi ali que Mohamed trabalhou como garçom e sorveteiro no final da década de 20, foi ali, no segundo piso onde ficava a residência do Zraik e a divina Matilde, que Kamel fez as pazes com Ismail Hammud depois de ter lhe dado um tiro por causa da Anice, foi ali que Dalila teve um chilique ao ver seu fogoso beduíno Abdo bu Râs pela primeira vez, foi ali que Daoud, o irmão mais velho de Khalil Abbud, convenceu Anis, o pai de Anice, a não matar Kamel e Mohamed, porque eles tinham raptado a donzela Anice para casar com Kamel.

Eis a  histórica confeitaria Damasco, que também testemunhou, já nos seus anos terminais, a Guerra do pente de plástico.

Obrigado, Samira habibti…

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