A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

Uma das coisas mais belas e gratificantes para um escritor, especialmente se ele é novato, é perceber que seu leitor torna-se um amigo interagente. É o meu caso. Fico feliz que meus leitores têm participado de uma forma interativa, discutindo o caráter das personagens, condenando ou elogiando umas e outras, comentando as passagens, criticando, indo à busca, inclusive, de fotos para comprovar a existência – ou não – de algum cenário do romance. Foi o que fez a minha leitora e agora minha amiga Samira, de Curitiba.

Samira tem sido tão especialmente participativa que se eu a tivesse conhecido antes de terminar o Mohamed, o latoeiro eu, certamente, teria acrescentado mais um episódio no romance.

Foi um quebra-quebra que aconteceu em Curitiba no fim da década de 50. O governo federal tinha lançado a campanha do “seu talão vale um milhão”. O consumidor reunia suas notas fiscais de compras, era-lhe dado um número ou vários, e com eles o cidadão concorria a um prêmio de um milhão de cruzeiros.

Em um modorrento sábado à tarde, um comerciante árabe se recusou a dar uma nota a um policial militar a paisana que comprou um pente de plástico. O custo do pente era abaixo do valor estipulado pelo governo para extração de uma nota fiscal. Portanto, o árabe se viu no direito de recusar o fornecimento da nota. A discussão começou e os dois acabaram brigando. Não sabendo que o freguês era um policial, o árabe, um homem grande e forte, agarrou o policial, levantou-o e o atirou na calçada. Foi o estopim para a grande “revolta” dos brasileiros contra os “turcos”. Ou poderíamos chamar esse episódio de “A guerra do pente de plástico”. Em poucos minutos, turbas iradas, às centenas, começaram a apedrejar, quebrar e saquear as lojas dos árabes em Curitiba. Inclusive alguns árabes mais modestos, que vendiam frutas em carrinhos, tiveram seus cabriolés virados de ponta cabeça e as frutas roubadas ou estragadas. Ai do árabe se ele abrisse a boca. Tinha que se afastar do local e deixar os revoltosos fazerem o serviço. Foram três dias de terror para a comunidade árabe. O levante só se amainou com a severa intervenção da PM.

Mas Samira continua a reescrever comigo os adendos ao Mohamed, o latoeiro. Eis que ela me surpreende e me manda uma foto de 1948, da Praça Tiradentes, com a estação dos bondes. Notem que a a primeira loja da esquerda para a direita é a famosa Confeitaria Damasco. Foi ali que Mohamed trabalhou como garçom e sorveteiro no final da década de 20, foi ali, no segundo piso onde ficava a residência do Zraik e a divina Matilde, que Kamel fez as pazes com Ismail Hammud depois de ter lhe dado um tiro por causa da Anice, foi ali que Dalila teve um chilique ao ver seu fogoso beduíno Abdo bu Râs pela primeira vez, foi ali que Daoud, o irmão mais velho de Khalil Abbud, convenceu Anis, o pai de Anice, a não matar Kamel e Mohamed, porque eles tinham raptado a donzela Anice para casar com Kamel.

Eis a  histórica confeitaria Damasco, que também testemunhou, já nos seus anos terminais, a Guerra do pente de plástico.

Obrigado, Samira habibti…

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2 opiniões sobre “A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

  1. Samira

    يا جيلبيرتو حبيبي
    أنتَ تفرح قلبي بِكَلماتكَ
    Eu espero que esteja certo…..hehehe
    Adorei o texto, já havia lido antes… sempre fico de fazer um comentário, mas estou sempre protelando. Mil perdões por demorar tanto para fazer um comentário.
    Assim que pegar uns dias de férias, pretendo te mandar mais fotos de Curitiba, para você se “divertir” meu querido amigo.
    Adorei, adorei, adorei o seu texto…Como ja comentei uma vez, tenho saudades do que nao vivi…
    Sua amiga que te admira, sempre…Fique com Deus..

    • Querida Samira,

      Teu árabe está cada vez ficando mais perfeito. Obrigado, mil vezes, pelas palavras gentís. Mande as fotos antigas que eu as publico.
      Um grande beijo.

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