Arquivo do mês: março 2011

Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

 

Desde a queda dos últimos califados árabes e a subsequente ascensão do Império Otomano que os povos árabes sonham com uma união que vá desde o Golfo Pérsico até o Oceano Atlântico. Ou seja, uma potência populacional e geográfica unindo os árabes da Ásia aos árabes do Norte da África.

Quando houve a Primeira Guerra Mundial, depois de mais de cinco séculos os árabes tiveram seu sonho renovado. Os ingleses e franceses prometeram aos árabes que dariam a eles a liberdade de fundarem o seu grande califado, caso ajudassem os aliados a combaterem os otomanos.  Os árabes, que padeciam sob o jugo dos turcos otomanos durante cinco séculos, estagnados na idade média, sem escolas, sem direitos, empobrecidos, distanciando-se cada vez mais de uma Europa que passava por transformações rápidas, acalentavam o sonho de reconquistar as glórias passadas, toparam a parada. Ajudaram os aliados a derrotar os otomanos.

Mas na hora de cumprir com o prometido, as nações ocidentais mandaram seus aliados árabes às favas. Exilaram o xeique de Meca que comandou dezenas de milhares de beduínos à reconquista de Damasco e dividiram entre si os territórios conquistados. Coube aos ingleses a parte do leão.

Por que houve essa traição? A resposta é simples. Já se sabia que o petróleo recém descoberto na região seria o sangue que haveria de correr nas veias da civilização ocidental. Não se admitiria que, um dia, os árabes voltassem a ser a potência que tinham sido na Idade Média, tendo sob seu controle aquele precioso e vital bem, presenteado a eles por Alá. 

Assim sendo, ingleses e franceses decidiram dividir os territórios conquistados em países dominados por clãs ou tribos e colocaram nos governos príncipes e reis de acordo com suas conveniências. Formaram-se, então, as corruptocracias e cleptocracias espalhadas por todo o Oriente Médio e apoiadas pelos países ocidentais, agora com um membro mais forte e mais guloso, que eram os Estados Unidos.

Aqui e acolá, entretanto, surgiam revoltas lideradas por intelectuais. Isso preocupava as potências ocidentais que temiam que, a qualquer momento, surgisse um líder suficientemente forte para catalisar toda a raiva e todas as frustrações dos povos árabes de forma a uni-los, política e geograficamente, e tornar realidade o velho sonho do califado do Golfo Pérsico ao oceano Atlântico.

Nesse ínterim, surgia na Europa o movimento sionista que pregava um país para os judeus. Entre as várias opções, falava-se na Patagônia, na Amazônia, no Congo. Eis que então a fome uniu-se com a vontade de comer. Ou seja, as potências ocidentais adotaram o sionismo como sua causa e viram no movimento uma forma de separar os árabes da Ásia dos árabes da África, além de se livrarem do que eles consideravam “o problema judeu”.  A Palestina caiu como uma luva. Separava a África da Ásia, tinha alguma conotação histórica e, logicamente, tinha ligações bíblicas com os judeus.  Estava resolvido o problema. Tirava-se a população autóctone, os palestinos, e davam-se as terras aos judeus europeus.

Desde então, os árabes têm sofrido mais humilhações e frustrações. A Palestina, como entidade, desaparecendo abocanhada aos pedaços grandes por Israel e os povos árabes sentindo-se impotentes, sob as mãos de ferro de seus governantes, que para agradar os Estados Unidos, alguns assinaram aviltantes acordos de paz com Israel (Egito e Jordânia) e outros simplesmente largaram de mão a causa palestina, a causa maior de todos os árabes.

Os povos árabes jamais engoliram essas desonras. Acrescente-se a isso os crescentes índices de pobreza, as altas taxas de desemprego e a falta de perspectiva das centenas de milhares de jovens que se formam nas universidades árabes e está pronta a combinação perfeita para uma bomba relógio.

Um desses jovens, Mohamed Ben Azizeh, formado em uma universidade da Tunísia, não encontrando trabalho para exercer a sua profissão, decidiu vender verduras em um carrinho para obter o sustento de sua família. Como ele não tinha licença para fazer esse tipo de trabalho um policial destruiu seu carrinho. Desesperado, Mohamed Ben Azizeh não achou outra alternativa a não ser imolar-se ateando fogo no seu próprio corpo. O que Ben Azizeh não sabia é que ele seria o mártir que poria fogo no estopim que haveria de explodir em muitos países árabes, tanto do Norte da África quanto da Ásia.

O interessante é que esses levantes todos foram e estão sendo organizados através das redes sociais da Internet, especialmente do Facebook. Os jovens revoltosos árabes estão sabendo usar a tecnologia moderna a seu favor, para combater seus ditadores e seus cleptocratas. No futuro, essas revoltas serão estudadas como as revoluções do Facebook, da Internet ou qualquer outro nome pertinente.

Mas que nome daremos ao componente filosófico-ideológico desses movimentos? Seria um panarabismo? Não; isso já foi tentado por Gamal Abdel Nasser na década de 60 e não deu certo. Talvez possamos chamá-lo de “Neoarabismo”, que seria um sentimento de orgulho por ser árabe, despertado depois de décadas de profunda letargia, ou, plagiando uma das inimigas dos árabes, a senhora Condoleezza Rice, secretária de estado no governo Bush, um “Novo Oriente Médio”. Só que esse Novo Oriente Médio seria de ideário diametralmente oposto ao que pregavam a senhora Rice e seu patrão.

Portanto, o Ocidente – em especial os Estados Unidos e Israel – devem repensar suas táticas de lidar com os árabes para o futuro. Se todas essas revoltas tiverem sucesso, os árabes haverão de sentar-se às mesas de negociação de cabeça erguida, com orgulho restaurado e não com submissão. Terão coragem e força suficientes para fazer demandas justas e longamente esperadas dos americanos e israelenses. Bom para os palestinos. Finalmente.

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Arte Àrabe, ponte entre os povos


* Por Gilberto Abrão
Quando as palavras muçulmano, islã ou islamismo são pronunciadas, a primeira imagem que vem à mente do brasileiro – ou de quase todo ocidental – é a figura do sujeito de tez trigueira, olhar feroz, sobrancelhas grossas, nariz adunco e, geralmente, envolto no turbante árabe característico. À visão que se apresenta ao ocidental, não faltam os fuzis Kalashnikov ou os explosivos na cintura. É o terrorista. Esse juízo tomou proporções maiores depois do 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, com a destruição das duas torres do World Trade Center, parte do Pentágono e de um avião abatido. Mesmo os cidadãos nascidos nos países ocidentais eram detidos nos aeroportos e repatriados só porque tinham algum nome ou sobrenome que sugerisse ser muçulmano. Quantos brasileiros, inclusive homens de negócio, com nomes de Mohamed, Abdalla, Hussein e Ali passavam pelo constrangimento de serem detidos e embarcados no mesmo avião de volta ao país? E o que dizer dos que, com nome muçulmano, pleiteavam visto de entrada para os Estados Unidos? Inútil ficar na fila do consulado americano…

Todos os quatorze séculos de cultura e arte islâmicas foram atirados ao léu. Repentinamente, nós brasileiros, esquecemos a enorme contribuição árabe-muçulmana que nos foi legada  através dos quase oito séculos de presença islâmica na Ibéria, influenciando o próprio idioma que falamos. Esquecemos, em um estalar de dedos, o aporte que os árabes muçulmanos deram à humanidade na química, física, matemática, geografia, navegação, medicina e outras ciências. Diante desse estigma, muito raramente vem à mente do ocidental o muçulmano poeta; o muçulmano escritor; o muçulmano artista plástico; o muçulmano ligado às artes cênicas; o muçulmano que se comunique com outro ser humano por meio de qualquer tipo de arte.

De repente, porém, somos surpreendidos com mostras de arte que vêm do Oriente Médio para resgatar a importância da arte muçulmana; importância e valor que jamais deveriam ter sido esquecidos ou negligenciados. Graças a Deus – ou a Alá, como queiram –, essas mostras trazem o que há de mais expressivo dentro da arte islâmica. Algumas peças pertencem à História. Outras, entretanto, foram brilhantemente executadas por artistas contemporâneos, ainda vivos e ativos.

Uma das exibições de maior interesse é a mostra Islã: Arte e Civilização, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. São trezentas magníficas peças que narram e ilustram os mil e quatrocentos anos de História Islâmica. Por meio das obras expostas, acompanhamos o percurso artístico da civilização islâmica. Você estará em uma bem elaborada sala temática que, por si só, conduz o admirador a uma sensação de travessia histórica. Há tapeçaria, vasos, punhais, luminárias, objetos de cerâmica e de metal. Todos vindos dos museus da Síria e do Irã. Convém observar cada item, em silêncio e longamente, e deixar-se levar pela imaginação para ver onde aquele artefato de arte poderá levar você.

Só essa mostra já bastaria para nos indicar que estamos diante de um povo criativo, sensível, com alma poeta e que, nós brasileiros, temos muito em comum com ele. Conseguimos entender a mensagem que o artista muçulmano quer nos transmitir com muita clareza e eloquência. A linguagem da arte não precisa de tradução. É um diálogo universal entre almas. O artista muçulmano, entretanto, é capaz de fazer uma autocrítica ou censurar a própria cultura e até a própria condição de muçulmano. Na exposição Miragens – Arte Contemporânea no Mundo Islâmico, os artistas vêm do Egito, Irã, Turquia, Paquistão, Palestina ocupada e de outros países muçulmanos. Aqui, o artista muçulmano expõe sua dor, seu sofrimento, seu desencanto. Mas, mostra seu orgulho de ser muçulmano, sem medo. Escancara o seu passaporte sem temer ser repatriado ou impedido de entrar. Você permite que ele entre, porque o entende. Ele fala árabe, turco, pachtun, urdu ou persa. Não importa. Você o entende porque ele fala com a alma. Ele sai de si, atravessa a ponte e vem até você.  E você, ocidental, faz o mesmo com a sua arte. Atravessa a ponte e vai até ele. E, maravilha das maravilhas, você descobre que ele não é nenhum terrorista; sim, um homem universal.

Na cidade de São Paulo, precisamente na Rua Augusta 1.053, há uma forte e determinada arquiteta que ilustra a ponte que liga os povos – a senhora Mjda al Shara preside o Centro de Cultura Árabe-Sírio desde janeiro. Ela trabalha com afinco, divulgando a cultura e a arte síria, que é árabe e predominantemente muçulmana.  De lambuja, dá aulas de árabe clássico a brasileiros interessados na língua do Alcorão. Valioso trabalho está a senhora Mjda executando. Graças a pessoas como ela, ainda chegará o dia em que haveremos de ler, em português, os poetas clássicos do Islã. Quem sabe ainda veremos brasileiros escrevendo teses sobre al Mutanabbi, cujos versos eram considerados – registro aqui, a mãe de todas as heresias! – mais profundos que os versículos do próprio Alcorão, que é a palavra de Alá? Ou, quem sabe, estaremos estudando, nas cadeiras de literatura, os poemas de al Farazdaq cujas palavras eram tão eruditas que poderiam ser esculpidas sobre rocha. Ah, sim!  Chegará o dia em que teremos mais artistas plásticos muçulmanos atravessando a ponte até nós. Pois a arte é uma ponte entre os povos, franqueada, sem check point, sem impedimentos.

* Gilberto Abrão

De origem árabe, Gilberto Abrão – autor do livro Mohamed, o latoeiro, lançado pela Primavera Editorial em 2009 – foi educado em um bairro simples de Curitiba, habitado por imigrantes poloneses, ucranianos, italianos, alemães e alguns sírio-libaneses. Aos 10 anos foi enviado pelo pai ao Líbano com a missão de aprender o idioma árabe, a cultura e a religião muçulmana. Aos 14 anos voltou ao Brasil e anos depois, em 1962, alistou-se como voluntário das Forças de Emergência das Nações Unidas para guarnecer as fileiras de soldados que atuavam na fronteira entre o Egito e Israel. Por ser fluente em árabe e inglês, permaneceu por 14 meses na Faixa de Gaza. Apaixonado por uma gaúcha, retornou ao Brasil em janeiro de 1965 para lecionar inglês em uma escola de idiomas. No ano seguinte, após obter o licenciamento para abrir uma franquia dessa escola de inglês, migrou para a cidade de Novo Hamburgo (RS). Na década de 1970 colaborou com o jornal Zero Hora, no qual publicava crônicas e contos na coluna Sol e Chuva.
O escritor Gilberto Abrão vem a São Paulo, a convite da Primavera Editorial, na primeira semana de abril de 2011. Agendamento de entrevistas: betania.lins@printeccomunicacao.com.br, fone (11) 5182-1806.
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