Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

 

Desde a queda dos últimos califados árabes e a subsequente ascensão do Império Otomano que os povos árabes sonham com uma união que vá desde o Golfo Pérsico até o Oceano Atlântico. Ou seja, uma potência populacional e geográfica unindo os árabes da Ásia aos árabes do Norte da África.

Quando houve a Primeira Guerra Mundial, depois de mais de cinco séculos os árabes tiveram seu sonho renovado. Os ingleses e franceses prometeram aos árabes que dariam a eles a liberdade de fundarem o seu grande califado, caso ajudassem os aliados a combaterem os otomanos.  Os árabes, que padeciam sob o jugo dos turcos otomanos durante cinco séculos, estagnados na idade média, sem escolas, sem direitos, empobrecidos, distanciando-se cada vez mais de uma Europa que passava por transformações rápidas, acalentavam o sonho de reconquistar as glórias passadas, toparam a parada. Ajudaram os aliados a derrotar os otomanos.

Mas na hora de cumprir com o prometido, as nações ocidentais mandaram seus aliados árabes às favas. Exilaram o xeique de Meca que comandou dezenas de milhares de beduínos à reconquista de Damasco e dividiram entre si os territórios conquistados. Coube aos ingleses a parte do leão.

Por que houve essa traição? A resposta é simples. Já se sabia que o petróleo recém descoberto na região seria o sangue que haveria de correr nas veias da civilização ocidental. Não se admitiria que, um dia, os árabes voltassem a ser a potência que tinham sido na Idade Média, tendo sob seu controle aquele precioso e vital bem, presenteado a eles por Alá. 

Assim sendo, ingleses e franceses decidiram dividir os territórios conquistados em países dominados por clãs ou tribos e colocaram nos governos príncipes e reis de acordo com suas conveniências. Formaram-se, então, as corruptocracias e cleptocracias espalhadas por todo o Oriente Médio e apoiadas pelos países ocidentais, agora com um membro mais forte e mais guloso, que eram os Estados Unidos.

Aqui e acolá, entretanto, surgiam revoltas lideradas por intelectuais. Isso preocupava as potências ocidentais que temiam que, a qualquer momento, surgisse um líder suficientemente forte para catalisar toda a raiva e todas as frustrações dos povos árabes de forma a uni-los, política e geograficamente, e tornar realidade o velho sonho do califado do Golfo Pérsico ao oceano Atlântico.

Nesse ínterim, surgia na Europa o movimento sionista que pregava um país para os judeus. Entre as várias opções, falava-se na Patagônia, na Amazônia, no Congo. Eis que então a fome uniu-se com a vontade de comer. Ou seja, as potências ocidentais adotaram o sionismo como sua causa e viram no movimento uma forma de separar os árabes da Ásia dos árabes da África, além de se livrarem do que eles consideravam “o problema judeu”.  A Palestina caiu como uma luva. Separava a África da Ásia, tinha alguma conotação histórica e, logicamente, tinha ligações bíblicas com os judeus.  Estava resolvido o problema. Tirava-se a população autóctone, os palestinos, e davam-se as terras aos judeus europeus.

Desde então, os árabes têm sofrido mais humilhações e frustrações. A Palestina, como entidade, desaparecendo abocanhada aos pedaços grandes por Israel e os povos árabes sentindo-se impotentes, sob as mãos de ferro de seus governantes, que para agradar os Estados Unidos, alguns assinaram aviltantes acordos de paz com Israel (Egito e Jordânia) e outros simplesmente largaram de mão a causa palestina, a causa maior de todos os árabes.

Os povos árabes jamais engoliram essas desonras. Acrescente-se a isso os crescentes índices de pobreza, as altas taxas de desemprego e a falta de perspectiva das centenas de milhares de jovens que se formam nas universidades árabes e está pronta a combinação perfeita para uma bomba relógio.

Um desses jovens, Mohamed Ben Azizeh, formado em uma universidade da Tunísia, não encontrando trabalho para exercer a sua profissão, decidiu vender verduras em um carrinho para obter o sustento de sua família. Como ele não tinha licença para fazer esse tipo de trabalho um policial destruiu seu carrinho. Desesperado, Mohamed Ben Azizeh não achou outra alternativa a não ser imolar-se ateando fogo no seu próprio corpo. O que Ben Azizeh não sabia é que ele seria o mártir que poria fogo no estopim que haveria de explodir em muitos países árabes, tanto do Norte da África quanto da Ásia.

O interessante é que esses levantes todos foram e estão sendo organizados através das redes sociais da Internet, especialmente do Facebook. Os jovens revoltosos árabes estão sabendo usar a tecnologia moderna a seu favor, para combater seus ditadores e seus cleptocratas. No futuro, essas revoltas serão estudadas como as revoluções do Facebook, da Internet ou qualquer outro nome pertinente.

Mas que nome daremos ao componente filosófico-ideológico desses movimentos? Seria um panarabismo? Não; isso já foi tentado por Gamal Abdel Nasser na década de 60 e não deu certo. Talvez possamos chamá-lo de “Neoarabismo”, que seria um sentimento de orgulho por ser árabe, despertado depois de décadas de profunda letargia, ou, plagiando uma das inimigas dos árabes, a senhora Condoleezza Rice, secretária de estado no governo Bush, um “Novo Oriente Médio”. Só que esse Novo Oriente Médio seria de ideário diametralmente oposto ao que pregavam a senhora Rice e seu patrão.

Portanto, o Ocidente – em especial os Estados Unidos e Israel – devem repensar suas táticas de lidar com os árabes para o futuro. Se todas essas revoltas tiverem sucesso, os árabes haverão de sentar-se às mesas de negociação de cabeça erguida, com orgulho restaurado e não com submissão. Terão coragem e força suficientes para fazer demandas justas e longamente esperadas dos americanos e israelenses. Bom para os palestinos. Finalmente.

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8 opiniões sobre “Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

  1. Jorge Campelo

    Entrei neste site ao procurar sobre o sonho do califa com aristóteles. Gostei. Sou cristão, sacerdote latino, e morei em Sin El Fil, Líbano, de 2006 a 2008. Fiz amigos sunitas, xiitas, maronitas, greco católicos, ortodoxos, armênios… Sobre Os acontecimentos nas ruas do mundo árabe, antes que acontecessem, um general reformado com bons contatos e inteligência me traçou uma estratégia militar que previa isto. Ele atualmente mora nos EUA. Estava nas férias de verão visitando parentes e era muito amigo dos religiosos onde morei. Ele conhecia muito de história libanesa e pedi para que se encontrasse comigo e me ensinasse história. Ele o fez e ficamos próximos. Foi quando lhe perguntei sobre a real possibilidade de que os boatos acerca de uma invasão do Irã se concretizarem naquele momento. Ele respondeu mostrando conhecimento de estratégia militar e descreveu na mosca o que seria uma hipótese de ação americana. Este email já está gigante, se puder tratarei disto mais tarde contigo que me despertou novamente para este tema que nunca tratei com ninguémalém de familiares próximos quando as coisas começaram a suceder-se conforme a hipótese desenhada pelo general. Em resumo ele disse que os EUA não iriam invadir naquela hora o irã, mesmo que se falasse tanto isto. Desenhou um mapa e colocou o irã, os países que poderiam apoiá-lo, as bases americanas e quantos soldados haviam em cada lugar, qual era o potencial de defesa e ataque de cada um. No mapa qUe ele desenhou em uma folha em branco, ele sugeriu uma hipótese de desestruturação prévia e abalo governamental em alguns países para que, então, uma ação militar de invasão fosse comandada. Isto é o resumo. Quando, depois, começaram as revoltas nas ruas árabes, me lembrei do mapa desenhado e do que era necessário para pavimentar a invasão ao Irã e vi que estava acontecendo o que ele falou. Fiquei surpreendido e pensando que poderia se coincidência, pois minha opinião era a de que as revoltas estariam ligadas aos fatores indicados em seu artigo. Contudo, a forma e os países que foram se envolvendo no conflito cada vez mais iam se encaixando naquele desenho do general. A Síria agora está como está. Bom, não sou do tipo conspiracionista mais tenho a impressão que há fatores catalisadores destas revoltas muito mais estruturados do que o facebook.

    • Prezado Jorge,
      Sendo você um sacerdote e tendo morado na Terra Santa acredito que temos muita coisa saber um do outro e muitas ideias a trocar.
      Vamos manter contato.
      Um forte abraço,
      Gilberto Abrão

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