DAN BROWN OU LUIS MATTA?

      Dan Brown ou Luis Matta?

Estou folheando um livro em uma livraria local. Uma jovem senhora, de óculos, com cara de boa escolaridade, vai até a atendente e pergunta:

– Vocês têm o último livro do Dan Brown?

– A senhora quer dizer “O símbolo Perdido”?

– Esse mesmo? – exulta a jovem senhora.

 -Tem, sim! Aqui, na frente da loja!

Olho para onde a atendente apontou e vejo uma enorme pilha do dito livro do Dan Brown na parte mais nobre da livraria. Ou seja, na entrada.

Depois que a culta senhora sai feliz da vida com o seu Dan Brown, pergunto à atendente:

– Desculpe a minha curiosidade, mas vocês acham que venderão essa pilha em uma semana?

A moça esboçou um sorriso meio gozador e respondeu:

– Senhor, sai uma pilha igual a essa por dia!

Curioso, faço a pesquisa e descubro que Dan Brown vende mais que dez bons autores brasileiros de primeira linha, juntos. Nem o Chico Buarque – que vendeu o nome e não o livro – vendeu mais do que ele. Descubro que a editora brasileira que publicou o “Código da Vinci”, imprimiu 400 mil exemplares na primeira edição, mas teve que, na última hora, duplicar a tiragem para vender em poucos dias.

Por que será? Por que nenhum autor brasileiro atinge tal cifra? Seria por que o autor estrangeiro é mais talentoso?  De jeito nenhum!

Li o “Código da Vinci”.   Uma boa história de aventura, que se passa em não mais do que dois dias, onde o personagem principal chega ao hotel cansado, depois de uma palestra, e sai logo em seguida para passar o tempo todo fugindo de um lugar a outro, sem descansar, sem dormir, sem comer e – pior –  sem tomar banho. Para chegar ao fim da história e dizer que a namorada francesa era descendente de Jesus. Situação surrealista! Mas a idiotice vendeu um milhão de cópias aqui no Brasil.

Em contrapartida, li “O Véu” do jovem escritor brasileiro, Luis Matta, especialista em thrillers, publicado pela Primavera Editorial, a mesma que publicou o meu “Mohamed, o latoeiro”.  “O Véu” é uma excelente história, com fatos plausíveis, nada de idiotices ou surrealismos, um thriller de primeira linha do início ao fim, narrado pelo Luis Matta com excelente técnica.  História por história, sou mais “O Véu”.  Thriller por thriller, acho “O Véu” mais lógico, mais verossímil, mais palatável. Além do mais, o Luis Matta usa a linguagem do português brasileiro, com todas as suas nuances linguísticas, suas expressões idiomáticas e criatividade típicas.

Enfim, o Luis Matta não fica devendo nada a um Dan Brown da vida! Aliás, pelos aspectos que expus acima, até o supera. Mas vamos comparar os números:

Enquanto o Dan Brown vendeu um milhão de exemplares só aqui no Brasil em poucas semanas, duvido que o Luis Matta tenha atingido a marca de 10 mil exemplares depois de um ano da publicação do seu “O Véu”!  Aliás, afirmam os entendidos do mercado literário brasileiro que o escritor patrício que chegar aos 10 mil exemplares é um best seller. Não contando os Chico Buarques, os Jô Soares ou Paulo Coelho, é claro! Esses são os nomes que vendem. Não discutindo o mérito de seus livros, esses caras podem escrever qualquer merda que vende centenas de milhares. É ou não é?

Mas por que essa abissal diferença entre um Luis Matta e um Dan Brown? Simples, na minha opinião: o pobre leitor brasileiro entende que tudo que vem de fora (especialmente dos Estados Unidos) é bom e é melhor do que o nacional; a grande mídia brasileira, sei lá porque razão, alardeia a “qualidade” da literatura estrangeira em detrimento da nacional (observem a lista dos 10 mais vendidos livros de ficção de Veja. Quantos autores nacionais tem na lista?); falta de publicidade forte por parte das editoras. As editoras americanas consideram o livro realmente uma mercadoria como sapatos, roupas, carros, pasta de dente, pizzaria, etc. Fazem anúncios do livro em ônibus, em revistas e jornais (claro que daí combinam uma ótima resenha sobre o livro), em outdoors (que lá eles chamam de bill boards.) Sai propaganda do livro até nos banheiros públicos de Nova Iorque!

Nós aqui no Brasil somos cheios de preconceitos, de não-me-toques! – Fazer propaganda de um livro em ônibus? Ou em outdoors? Deus me livre! – diria o executivo de uma editora brasileira, cheio de melindres.

Enquanto isso, por força da publicidade americana, o leitor brasileiro vai se drogando com os Dan Brown e nem chega a conhecer um excelente Luis Matta.

Para finalizar, entre o meu “Mohamed, o latoeiro”, como romance étnico, e o “Caçador de Pipas” do Khaled Husseini, o meu “Mohamed” dá de 10  a 0 no “Caçador”, sem falsa modéstia.

Beijos e abraços

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| 8 Comentários

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8 opiniões sobre “DAN BROWN OU LUIS MATTA?

  1. Silvia Kaercher

    Gilberto, sinceramente não conheço a obra de Luis Matta, e confesso que li todos os livros de Dan Brown. Muito mais por curiosidade do que por admiração, compreende? Ouve-se tanto falar de seus livros, dá uma certa curiosidade. Mas a decepção é o único fruto que se tira dessa literatura. Uma trama sempre igual, um roteiro repetido à exaustão. O último então, o tal “Simbolo Perdido”, chega a ser chato, de tão teológico e “didático”. Mas aguentei até o fim….
    Confesso também que leio poucos autores brasileiros, gaúchos então…além de Érico, creio que só tu mesmo!! (Ah, e Lya Luft, nos tempo da escola).
    Tens razão quando dizes que a propaganda feita em cima dos livros estrangeiros é o que os vende. Pena dos pobres autores brasileiros, que enfrentam todo tipo de “burrocracia” para publicar seus livros e entram nessa concorrência, já perdida…
    Forte abraço, Silvia Kaercher.

    • Oi Silvia,

      Tenho certeza de que tu irias gostar do Luis Matta. É um especialista em thriller. O Véu é a história de um quadro com uma uma muçulmana sensualíssima, coberta com um véu. a história envolve brasileiros e iranianos. Entre no Google e digite o nome do livro.
      Um grande abraço.
      Gilberto

  2. ESTER MEDINA BARROZO

    CARO AMIGO GILBERTO, entendo sua mágoa ao comparar as literaturas brasileiras e estrangeiras, mas lembre-se da frase “Santo de casa não faz milagres”.
    Eu, particularmente adoro literatura estrangeira, mas não apenas por ser “enlatado”, pois também gosto, claro que me menor proporção de muitos escritores brasileiros.
    Como o senhor citou Dan Brown , dele tenho : Anjos e Demônios , O Código da Vinci, O Símbolo Perdido e Ponto de Impacto, lidos exatamente nesta ordem e concordo contigo quanto ao surrealismo, mas daí a chamar de “idiotice” é ofender quem adquiriu e leu este e outros escritores estrangeiros. Na minha modesta opinião, é preciso ter muita cultura e entendimento de tudo que ele cita em seus livros e muita inteligência também. Eu o admiro por isso e não por ser “importado”. Quanto a esse brasileiro que citas aqui (LuisMatta), confesso minha ignorância e digo que não o conheço ( mas deixou-me curiosa e vou procurá-lo), mas poderia falar de outros que tenho – e muitos – em minha biblioteca particular. Vou comentar apenas os nomes que citados por VS.: “Leite Derramado” , de C. B. de Holanda, não gostei, prefiro-o como cantor; de P. Coelho tenho uns 20 livros e confesso que só uns 4 ou 5 me agradaram ( vale lembrar que este é mais famoso lá fora que em nosso país) , Jô Soares, apesar de considerá-lo muito inteligente e culto, nada tenho dele pois seus livros são caríssimos. Quanto a Khaled Hosseini, considero “A Cidade do Sol”, mais interessante que “O Caçador de Pipas”, pois nos mostra a cultura e a vida de mulheres daquela região.
    Ah, sobre a propaganda, a culpa é dos próprios brasileiros e te digo que de nada adiantaria usar a mesma estratégia deles, pois nosso “irmãos tupiniquins” pouco se interessam por literatura e nem notariam mesmo que se colocasse no recheio do “hot dog”ou na cobertura da “pizza”. Digo isto porque trabalho na Biblioteca da Escola Estadual e sinto como é pouco valorizada a leitura. Finalizado, o senhor sabe que conheço seu livro e que gostei muitíssimo dele porém, me desculpe mas vou continuar me “drogando” com a literatura estrangeira, pois como disse certa personagem d’uma certa novela: “Se eu não conhecer, como poderei criticar?.”
    Abraços.

  3. Cristina Duchini

    Querido Gilberto:
    Não sei quem escolhe os livros que ficam em destaque nas livrarias, ou quanto custa para ser “escolhido”. Mas, em um país em que entrar em uma livraria já é um hábito pouco comum e comprar um livro, mais ainda, o receio de investir em um exemplar que não corresponda às espectativas faz com que a grande maioria compre os livros que já trazem a chancela da crítica, da mídia, ou de outros leitores conhecidos. Experimentem colocar uma pilha, igual à que viste, deste livro – O Véu, ou de algum outro bom autor nacional, bem na entrada da livraria, com uma bela resenha e avaliação de algum crítico conhecido, que te garanto que venderá mais do que se pousado na seção de autores nacionais, entre centenas de opções. É, com certeza, um caso de QI (Quem Indica…)
    Beijos
    Cristina

    • Querida Cristina,

      Tua análise da questão está correta e bem fundamentada. Acho que tu acertaste bem no alvo. Um grande beijo.Gilberto

  4. Pai! Também acho Dan Brown enrolado e idiota, mas gosto não se discute e temos que respeitar a opinião dos outros. Anais Nin é um ícone da literatura erótica da década de 40, e na minha opinião, ela só sabe falar em lesbianismo e pedofilia. Cada frase que leio, em uma obra dela, me lembra uma cena de filme pornô de 5ª. Em compensação, Tolstói e Dostoiévski falam das questões humanas com uma linguagem simples e de forma profunda, que qualquer um pode ler e curtir. O Caçador de Pipas e a Cidade do Sol são histórias lindas. Tristes, mas lindas. E Husseine é um ótimo escritor. Muita calma nesta hora. Beijo

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