Arquivo do mês: agosto 2011

RAPSÓDIA DO HOLOCAUSTO DE GAZA EM UM ÚNICO ATO

RAPSÓDIA DO HOLOCAUSTO DE GAZA EM UM ÚNICO ATO

                                                                                         (conto escrito em 2008)

 

 

 

Prelúdio

 

Andante

 

(Flauta doce. Sonoridade lânguida, melancólica, como de hábito é a música árabe.)

Ano cristão de 2008. Dezembro gélido. Ano da Hegira de 1430.

Seu nome real era Maaruf Khaled Abu Salma. Porém, ao fazer a peregrinação à Meca na década de oitenta, recebeu o título de Hajj, que significa o peregrino. Hajj, título que ele carregava com honra, mas com humildade, como deve fazer um bom e pio muçulmano. 

Hajj Maaruf apressava-se na sua volta de Rafah, carregando um pequeno saco de farinha, um pouco de açúcar, um pacote de chá, arroz e lentilhas, que tinham chegado às suas mãos pela passagem de Rafah. O Egito tinha aberto a passagem por algumas horas. Hajj Maaruf teve sorte. Conseguiu um bom volume de víveres naquele dia para alimentar a família. Correu o mais rápido que seus setenta e poucos anos permitiam para pegar um carro que o levasse de volta ao campo de refugiados de Jabália, na fronteira Norte da Faixa de Gaza. Conseguiu o carro, juntamente com outros dois homens que iam ao norte da Faixa também. Hajj Maaruf não era cidadão nativo de Gaza. Era um refugiado e vivia no campo de Jabália.

Sentou-se à frente, ao lado do motorista. Os outros dois homens, mais jovens, cederam-lhe a honra de sentar na frente.

– De onde o senhor é, Hajj? – um dos homens perguntou.

– De Jabália, do campo! – respondeu, laconicamente. Não estava com vontade de conversar.

 

Allegro, ma non troppo

(Toques de alaúdes, nai, a sensual flauta árabe, violinos languentes no fundo)

 

O sol estava se pondo lá no horizonte do Mediterrâneo. Hajj Maaruf olhava para a direita e conseguia enxergar os tanques israelenses na fronteira. Estavam a não mais de cinco quilômetros da estrada principal que liga Gaza às demais cidades da Faixa. À esquerda, a pouco mais de dois quilômetros, estava o mar Mediterrâneo. À direita os temíveis tanques do inimigo, à esquerda o mar. “Será que os sionistas vão nos empurrar para o mar desta vez?”, perguntou-se.

Normalmente, a viagem de Rafah, extremo sul da Faixa, até Jabália, extremo norte, não leva mais do que quarenta minutos. Mas nesse dia o tráfego estava mais lento. Muitos carros voltando de Rafah, pessoas caminhando na estrada carregando mantimentos, outras em bicicletas, outrasem jumentos. Pareciaque todo o um milhão e meio de seres que vivem na Faixa de Gaza tinham ido à passagem de Rafah para buscar mantimentos.  

O sol desapareceu no Mediterrâneo. Hajj Maaruf se esqueceu da pressa quando começou a absorver-se sobre sua vida. Seus pensamentos vagaram pelo tempo, através dos anos, e foram pousar em 1948, abril. 

 

Vivace, con spirito

(piano forte e rápido, tons graves, corneta no fundo, repicar de taróis)

 

O grupo terrorista sionista Irgun estivera em sua aldeia perto de Askalan, matara o que e quem pôde, seus homens incendiaram as casas, violentaram as mulheres, mataram as grávidas, abrindo-lhes os ventres a baioneta. Os terroristas apostavam para ver se o feto era masculino ou feminino.  Toda vez que era perguntado, Hajj Maaruf não cansava de contar esse massacre dantesco. Os sionistas já tinham feito isso na aldeia de Deir Yassin, cujo extermínio foi decisivo para expelir a maioria dos palestinos das demais aldeias e cidades através do terror. Os que permaneciam eram chacinados.

Quantos anos teria o jovem Maaruf Khaled Abu-Salma no início de 1948?

– Não sei exatamente! Talvez quatorze, porque meu pai dizia que eu nasci no ano que a vaca de Abu Omar teve dois bezerros! Já minha mãe, que Allah a tenha no mais amplo Paraíso, discordava dele! Ela dizia que eu nasci no ano da grande tempestade de neve em Jerusalém! Isso me daria quinze anos!

O jovem Maaruf Khaled, juntamente com seus pais e cinco irmãos, fugiram da aldeia antes da chegada dos sionistas. Souberam mais tarde que os judeus não tinham deixado pedra sobre pedra. A família foi ao sul, em direção a uma cidadezinha poeirenta chamada Gaza, juntamente com alguns milhares de outros fugitivos. Terminada a guerra de 1948, eles se viram colocados em um acampamento de tendas, ao norte de uma faixa de terra de quarenta quilômetros de comprimento, por uma média de oito quilômetros de largura. Essa faixa de terra ficou sob a administração do Egito e o acampamento de refugiados era chamado de Jabália.

 

Allegro

(Rápidos toques de piano, flautas, violinos)

 

O jovem Maaruf casou poucos anos depois com uma outra refugiada, a bela Sâmia. Maaruf trabalhava duro, Sâmia cuidava da casa e dos filhos que já eram três quando aconteceu o tríplice ataque ao Egito, em 1956, arquitetado por Inglaterra, França e Israel.

Hajj Maaruf tirou do bolso de sua dachdecha, o camisolão branco – um maço de cigarros. Embora todos os xeques lhe dissessem que fumar era um hábito condenável pelo Islã, ele não conseguira deixar o vício. Pedia perdão a Allah em todas as orações diárias pelos pequenos pecados. Ofereceu um cigarro ao motorista que aceitou. Emprestou o seu cigarro para que o motorista acendesse o seu.

Hajj Maaruf lembrou-se daquela guerra de 56.

Gamal Abdel Nasser nacionalizara o Canal de Suez. Aconteceu então a invasão ao Egito. Inglaterra e França, que se julgavam donas do Canal, vieram pelo ar e mar e Israel rolou seus tanques pela Península do Sinai. Afinal, essa era a função de Israel, uma cunha a dividir os árabes geograficamente. Foram combates violentos, dos quais Maaruf e sua família pouco souberam e pouco viram. Não havia muitos soldados egípcios para oferecer resistência aos judeusem Gaza. Ospalestinos da Faixa, desarmados, não puderam fazer nada. Os combates violentos aconteceram depois de Rafah, Sinai adentro, passando por el-Arish até chegar ao Canal.

A preocupação do Ocidente era o Canal. Ninguém queria saber dos palestinos, relegados ao esquecimento, sob o domínio da Jordânia e do Egito. E aos refugiados pelo mundo afora, ninguém dava atenção.

Hajj Maaruf pensou em voz alta:

– Está ficando noite e daqui a pouco toda a Faixa vai estar escura. Eu não fiz a minha oração do ocaso ainda. Não tem importância. Posso uni-la à oração da noite quando chegar em casa.

– Ninguém fez a oração do pôr-do-sol ainda, Hajj! – disse um dos passageiros de trás.

– Será que os judeus vão nos atacar hoje? – lançou a pergunta no ar.

Como não teve resposta, voltou aos seus devaneios.

 

Agitato

(Violinos em movimentos rápidos, tambores e taróis, piano agudo, flautas agitadas)

 

Em 1964 foi fundada a Organização pela Libertação da Palestina. Maaruf Khaled Abu-Salma, então com trinta ou trinta e um, foi ser um fedaí, um guerrilheiro da OLP. A missão dos fedaín, era atacar os kibutzin que ficavam próximos à fronteira da Faixa. À noite, sorrateiramente, atravessavam a valeta que demarcava a linha que separava Israel da Faixa de Gaza, mesmo sob as barbas dos soldados da ONU, que, tarde da noite, cochilavam nos seus postos de observação.

Hajj Maaruf sorriu. Ele e os companheiros tinham sido instruídos de passar pela parte da Faixa controlada pelos brasileiros e pelos indianos que eram soldados muito simpáticos e se os vissem atravessando a fronteira, não os delatavam. Já os canadenses, noruegueses, suecos e dinamarqueses apitavam e faziam um barulho danado e às vezes até atiravam nos fedaín. Os iugoslavos variavam seu comportamento conforme o contingente. Se a maioria era de sérvios, não dava para atravessar do lado deles. Eles agiam como os canadenses. Se o contingente era composto de bósnios e havia entre eles muçulmanos que eram simpáticos à causa palestina, o trabalho era mais fácil.

Maaruf Khaled atravessou aquelas valas várias vezes. Em muitas ocasiões enfrentou os colonos judeus dos kibutzin. Acha que deve ter matado uns cinco judeus em sua vida, mas não há como provar Mas também viu dezenas de seus companheiros serem mortos pelos judeus.

Hajj Maaruf deixou rolar uma lágrima. Ainda bem que estava escuro e nem o motorista e nem os outros passageiros notaram. Chorou silenciosamente pelo martírio dos quatro filhos em combates contra os judeus. Ofereceu quatro mártires pela causa de sua amada Palestina. Inclusive sua Sâmia, fora morta em um ataque dos judeus, ao ter sua casa em Jabália bombardeada. Certamente todos eles estavam agora no Paraíso prometido por Allah a todos os fiéis que deixavam a vida gloriosamente em prol da pátria. Esse pensamento o fez trocar o pranto silencioso pelo sorriso.  

Agora, Hajj Maaruf morava com a filha e seus quatro netos. O genro fazia parte do grupo Jihad Islâmica. Fora caçado pelos israelitas por helicóptero e atiraram um foguete sobre o carro que virou uma bola de fogo.

 

Moderato

( Piano suave, violino lento)

 

O carro andava devagar. Na escuridão, mal se via as pessoas

que caminhavam rapidamente indo para suas casas.

– Já estamos em Gaza! – anunciou o motorista.

– Por favor, deixe-nos perto da Universidade al-Aqsa! – disseram os dois passageiros de trás.

Cinco minutos depois, os dois passageiros saíam na frente da universidade, que mal podia ser avistada no meio da escuridão.

 

Vivace, con Spirito

(Fortes rufares de tambores e taróis. Entrada dos metais: trompetes, trombones e saxofones)

 

Repentinamente, ouvem-se sons parecidos com trovões, no céu pipocavam clarões que pareciam fogos de artifício, explosões por todos os lados, luzes que cegavam surgiam por onde se dirigiam os olhos.

– Os judeus! Os judeus! – gritou o motorista.

Hajj Maaruf saltou para fora do carro e começou a correr.

– Onde o senhor vai, Hajj? – clamou o motorista.

– Preciso chegar em casa!

– Seus víveres, Hajj?! – avisou o motorista.

– Fique com eles!

Hajj Maaruf corria.

Jabália estava a cinco quilômetros. Nos céus de Gaza estouravam luzes e clarões letais. Pessoas corriam de um lado para outro. Explosões, gritos, choros, bombas de fósforo que pareciam lindos rojões.

Hajj Maaruf corria.

Ao mesmo tempo, os helicópteros Apache lançavam mísseis por todos os cantos. Os jatos F-16 passavam como cometas lançando bombas. Alvoroço nas ruas, brados de dor, homens, mulheres e crianças correndo desnorteadamente.  Para onde correr? A Faixa de Gaza é um território pequeno. Muita gente dizia que era um gueto ou a maior prisão a céu aberto do mundo. Para qualquer lado que os palestinos corressem as bombas de Israel os caçariam. Aterradora máquina mortífera. Do lado direito vinham os precisos tiros dos tanques Merkava. Do mar, os vasos de guerra de Israel ajudavam na destruição. 

Hajj Maaruf corria.

Começou a ver casas e prédios destruídos dos dois lados da rua pela qual passava, mulheres chorando, viu as primeiras crianças mortas sendo carregadas nos braços de mães desesperadas. Os trovões continuavam, as luzes fatais queimavam e matavam, os F-16 rugiam ferozes no céu, os temíveis helicópteros Apache continuavam a lançar as bombas de fósforo.

Hajj Maaruf corria.

Queria chegar logo à sua casaem Jabália. Suafilha e seus netos estavam a perigo. As vielas estreitas do campo de refugiados pareciam intermináveis. Enquanto ele corria, as casas e edificações caíam como pedras de dominó ou como se fossem feitas de areia.

Hajj Maaruf corria.

(Param os tambores e os taróis. Silenciam-se os metais)

 

Con fuoco

(Um único violino suave, agudo, acompanhado de violoncelos lentos e graves)

Amanheceuem Gaza. Obombardeio foi diminuindo de intensidade até parar. Ocasionais tiros aqui e acolá.  O sol foi encontrar Hajj Maaruf sentado sobre os escombros de sua casa. Um choro dolorido, audível à distância. Hajj Maaruf olhava aos céus e berrava revoltado.

– Por que isso, ó Allah?

Tinha tirado a sua hatta da cabeça. Hajj Maaruf atirava terra sobre sua cabeça como autopunição, esfregava seu rosto lacrimejado com terra tornando-o levemente enlameado.

– Sei que estás testando a minha fé, ó Allah!

Poucas pessoas se reuniam ao seu lado. Todos os habitantes do Campo de Refugiados de Jabália estavam chorando seus mortos, outros estavam procurando seus entes queridos sob os escombros. Hajj Maaruf era simplesmente mais um.

– A Ti entrego minha dor, ó Allah!!

Atirou-se ao chão, esfregando-se na terra, batendo no peito, urrando como um camelo ferido.

Dois repórteres europeus filmavam a cena.

– Olha que choro aterrorizante tem esse velho! – comentou o repórter norueguês com seu colega holandês.

– É verdade! Nenhum choro supera, em dor, o choro de um homem velho! – respondeu o holandês.

Hajj Maaruf permaneceu deitado no chão. De repente, imóvel, silente.

(Entra a nai, a flauta árabe triste).

 

fim

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FOTOS DA NOITE DE AUTÓGRAFOS DO “O MUÇULMANO E A JUDIA”

Queridos amigos e amigas,

Abaixo o link das foto do lançamento do livro em NH. O login é: livro;  a senha é: gilberto

www.rodrigofarias.com.br
login: livro
senha : gilberto

Beijos e abraços,

Gilberto Abrão

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