Arquivo do mês: junho 2012

Escritores do bem

A Primavera Editorial promoveu um projeto que se chama “Escritores do Bem”, onde alguns escritores selecionados teriam que escrever um artigo sobre uma ONG que eles admiravam. Tive a honra de ser um dos escolhidos. Então, foi confeccionado um livro eletrônico com os textos dos escritores, com belíssimas ilustrações a decorar cada texto. Entrem no site abaixo e vão folheando o livreto. Ali vocês vão encontrar os textos dos escritores que participaram. O meu é o primeiro, mas não significa que seja o melhor. Leiam também as introduções e descubram porque o livro foi feito. Boa leitura.

www.escritoresdobem.com.br

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TROCA DE OPINIÕES COM O PROF. PAULO HUMANN

             TROCA DE OPINIÕES COM O PROF. PAULO
   Prezado Paulo,
 
     Você não concorda comigo na minha análise sobre a situação na Síria e não está sozinho. Certamente, você terá a companhia de milhões de brasileiros, ocidentais, americanos e judeus.
     Por outro lado, eu também tenho a aderência de muitos ocidentais cristãos, 80% do povo sírio, a maioria esmagadora do povo palestino na diáspora e sob a ocupação sionista e a maioria dos árabes livres engajados com a libertação da Palestina.
     Eu jamais disse que sou a favor de ditaduras. Aliás, sempre as combati desde quando jovem, embora muito discretamente, a começar pela nossa ditadura militar dos anos de chumbo.
      Agora, o Presidente Bashar al-Assad é um democrata no sentido greco-cristão da palavra? Não. Longe, muito longe disso. Mas é um governante amado por 80% de seu povo, tanto sunitas, xiitas, alauítas, cristãos, druzos, curdos, e o escambau. É por isso que você pode encontrar o presidente jantando ao seu lado, sim.
     A questão que eu levantei no meu artigo não era se a Síria era uma “democracia”. O que eu questionei era por que dentre todas essas ditaduras do Oriente Médio os americanos, os ocidentais e Israel estão exatamente querendo a derrubada da Síria? É porque derrubar o Assad interessa a Israel e a existência de Israel no Oriente Médio é vital para que o Ocidente domine o petróleo árabe. Eu disse que Israel é a maior base americana e é. Israel está lá porque existe petróleo no Oriente Médio. Se não existisse petróleo no Oriente Médio, talvez Israel estivesse agora em Uganda, no Amazonas ou na Patagônia, que foi a primeira opção de Theodor Herzl quando fundou o sionismo. 
     Prezado Paulo, tenho parentes na Síria e no Líbano. Na Síria tenho uma irmã ainda viva do primeiro casamento do meu pai. Tenho sobrinhos e sobrinhos-netos lá. No Líbano tenho uns quatorze primos-irmãos, filhos de duas tias, irmãs de meu pai. Pelo menos 2 vezes por mês ligo para eles – pelo skype que é mais barato – e converso com eles. Um dos jovens da nova geração da família, que está tirando mestrado em literatura francesa (veja só!) em Damasco, me fez a seguinte intrigante pergunta: “Quem disse para esses ocidentais de m… que nós queremos essa democracia greco-judaico-cristã?” O termo é dele. Ele continuou, dizendo mais ou menos isso: “Com a ‘democracia’ deles, os ocidentais querem nos empurrar goela abaixo a licenciosidade, os vícios, o desrespeito à mulher que é, aí no seu Brasil ocidental, tio, meramente uma mercadoria do sexo! Nós queremos uma democracia cultural e essencialmente árabe, uma democracia calcada em nossas tradições milenares!” Eu disse ao meu sobrinho-neto que achava que ele tinha razão. E ele completou: “Olha, tio, não aceitaremos nenhum governo que abra mão da libertação da Palestina!” Sou obrigado a concordar com ele, Paulo.
     Considerando o que expus acima, devo dizer que o regime de Bashar al Assad não comete assassinatos em massa.  Quem está assassinando o povo são as gangs armadas pelo Catar e pela Arábia Saudita, com a aquiescência dos Estados Unidos e dos europeus – para precisamente culpar o exército sírio. Ontem, vimos uma tragédia na cidade de Haula na Síria. 114 mortos e mais de 300 feridos. Todos mortos a curta distância e muitos degolados. Em nenhum momento os observadores da ONU acusaram as forças de segurança sírias de terem cometido esse massacre. Não tinham como acusar. O tipo de assassinato é típico de grupos terroristas.  Mas a imprensa mundial, tendenciosa ou de forma ignorante, foi logo acusando o regime da Síria.
     Outra coisa, fazendo um adendo ao teu comentário sobre o Iraque. Saddam Hussein não só matou curdos; também matou milhares de xiitas que representam a maioria da população iraquiana.
      Para acabar de uma vez por todas com o tal mito xiita, meu estimado Paulo, devo afirmar que os xiitas, que representam menos que 20% do islamismo, são mais abertos ao diálogo que os sunitas. Por exemplo, a Al-Qaeda, os Salafitas e todo o fundamentalismo e terrorismo muçulmano vêm dos sunitas. Não que todos os sunitas sejam terroristas perigosos; Não, mil vezes não! Mas esses grupos terroristas vêm deles e só deles.  Tanto é que os cristãos do Líbano – ou pelo menos a maioria deles – são pró Hezbollah, o partido dos xiitas, porque se sentem protegidos com esse grupo.
     Quanto ao Irã, (que segue  a escola xiita do islamismo) é sim, à maneira deles, uma democracia, quer aceitemos ou não. A constituição deles está baseada nas leis corânicas. Têm o líder supremo, que é o “marjaa”, uma espécie de sábio de quem emana toda a filosofia de governo, que atualmente é o Aytollah Khamenei. Mas quem executa e administra o país é o presidente Ahmadinejad com o congresso que tem representantes da minoria cristã e até dos judeus. A propósito do Irã, a popularidade de Ahmadinejad andou caindo conforme as últimas pesquisas e é possível que ele não se reeleja nas  próximas eleições.
     Quanto à queda da fase de ouro da civilização muçulmana, no meu entender, foi quando o ápice foi atingido e os muçulmanos foram se  distraindo com o fausto e se desviaram dos mandamentos do Alcorão. “Segurai-vos todos na corda de Deus e não vos disperseis…” diz o Todo Poderoso no seu Livro Sagrado, o Alcorão. No entanto, os muçulmanos da Andaluzia e de todo o mundo árabe foram guerreando entre si, aliando-se com os cristãos contra seus próprios irmãos, até que começaram a se dividir e se tornarem pequenos reinos que, à medida que o tempo passava, foram sendo destruídos pelos reinos cristãos.
     Já no Oriente Médio, os turcos, recém convertidos ao Islã, tomaram conta de todo o Império Islâmico e o dominaram a ferro e fogo. Todo o mundo islâmico caiu nas trevas então. Não estou aí citando o efeito negativo das cruzadas que criou a intolerância e o preconceito que existe até hoje entre cristãos e muçulmanos. Depois dos Otomanos  vieram os colonizadores europeus, os americanos e com eles os israelenses e por aí vai…
     Não sou, prezado Paulo, “a-one-book-reader”. Leio, vejo e escuto tudo que me cai à mão sobre o Oriente Médio. Engulo sapos vendo a ultra direitista Fox TV dos Estados Unidos, engulo outros tantos sapos lendo o New York Times e a imprensa brasileira de um modo geral; mas também vou lá na fonte. Leio o jornal Al-Safir do Líbano e vejo o canal Al-Manar (www.almanar.com.lb).
     Ah, sim! Por justiça não devo me esquecer dos meus parentes lá na Síria e no Líbano, que formam uma excelente fonte fidedigna de informação.

 
Um forte abraço,
Gilberto
 
 
 
 
—– Original Message —–
From: PAULO HUMANN
To: Gilberto Abrão
Sent: Saturday, May 26, 2012 2:56 PM
Subject: TEU COMENTÁRIO SOBRE A SÍRIA

Caro Gilberto,
BOA TARDE.
Não costumo criticar negativamente artigos ou pensamentos alheios.
Uma porque tenho o “rabo muito comprido” e portanto tenho que cuidar dele e não o dos outros.
Mas preciso dizer-te, que não posso concordar com tua análise sobre a situação da Síria.
Concordo com o que dizes dos outros países da Oriente Médio. Foi o que sempre afirmei, desde que fiz minha jornada de trabalho no Egito em 2003.
Todos países islâmicos, com exceção da Turquia e de Montenegro (parte da ex-Iugoslávia) são ditaduras.
O Egito e a Jordânia eram as mais amenas destas ditaduras, se podemos usar o adjetivo ameno para tal prática.
Enfim, nenhuma, com exceção da Turquia e de Montenegro sabiam ou sabem o que é uma democracia, a não ser por filmes importados, nem sempre aceitos, sempre censurados.
O Líbano, que até 30 anos atrás era uma verdadeiro paraíso na região era sem dúvida uma outra exceção. Talvez porque era um cadinho religioso, com várias vertentes.
Lembro sempre, “be careful with peple that read just one book”.
Eleições havia no Líbano e na Turquia.
Minha análise não é nem um pouco sectária, estou apenas citando fatos.
A última ditadura (e das bem brabas e assassinas) da Europa foi a Albânia, apenas para afirmar a regra.
Mas voltando à Síria, colocaste que poderíamos almoçar com o Assad. Acho difícil porque o restaurante teria que ser muito grande só para caberem os guarda-costas.
Por sinal, Assad é presidente ou rei. Não é que este negócio de passar de pai para filho é  monarquia e não república. Veja que a mentira de sua legitimidade já começa por aí.
Tudo bem com a Jordânia e a Arábia Saudita, afinal, são reinos.
Mas a Síria imitou a Coréia do Norte, são “repúblicas monárquicas” e por sinal ambas não se importam em assassinar seu povo em massa.
Apesar de não apreciar as ditaduras da Arábia e outras, mas não tenho registro de nenhuma delas tenha matado tantos concidadãos quanto a Coréia do Norte e a Síria, talvez com exceção do Saddan Hussein, outro “maravilha” que fez uma “limpeza étnica” matando milhares de curdos.
Falando em eleições, temos que lembrar que tanto o Egito quanto o Irã eram hábeis em realizar eleições, mas isso sabemos que são piadas internacionais, porque localmente são tragédias.
Quanto as interferências dos países ocidentais preciso concordar parcialmente com teus escritos, porque são realmente e tradicionalmente desastrosas, da mesma forma como foram em outros lugares, com no Vietnam.
Mas quero comentar outro tema paralelo.
Há pouco enviei um vídeo sobre Córdoba (Espanha), muito interessante. Isto me fez lembrar um assunto que ainda tenho muita curiosidade e do qual te enviarei apontamentos.
Em Còrdoba e em Bagdad lá pelo ano 900 houve um florescimento da cultura e da ciência de uma forma extraordinária.
Numa época em que a Europa estava afundada na chamada “Idade das Trevas” que muitos errôneamente contestam, o novo mundo islâmico progrediu cientificamente, artisticamente e também militarmente (politicamente).
O desenvolvimento científico já entendi, foi devido a leitura do Alcorão que incentivou à observação e assim nasceu a metodologia científica, não usar só o raciocínio da filosofia grega, nem só a fé, do pensamento judaico-cristão-muçulmano, mas usar a observação, nascendo assim a experimentação mesclada com o raciocínio.
Como mencione, enviarei os textos sobre isso.
Mas pelo ano 1000 o One Book Reading matou tudo isso.
Ainda não descobri como esta tendência de progresso saiu de Córdoba e foi parar na França e na Itália, criando a maravilha do Renascimento e depois explodindo no movimento Reformista.
Certamente os historiadores já têm respostas, eu é que ainda não percebi, mas sou novo ainda e vou tratar de encontrar as causas destes dois grandes movimentos que acabaram com a hegemonia dogmática romana e trouxeram Luz às Trevas.
Mas o que me retorna ao tema principal, as trevas no  mundo islâmico. Vejo fracos lampejos, tímidos de abertura. Parecem que têm medo dos fundamentalistas, porque qualquer aragem libertária é logo sufocada com bombas xihitas e sangue dos demais.
Creio que o fundamentalismo já dominou o chamado mundo cristão e se nós não abrirmos os olhos voltará, assim como domina o mundo islêmico.
Na Europa era um ortodoxismo dito católico, hoje há uma ameaça de fundamentalismo evangélico, a exemplo do batista Bush e da TV de sua igreja, o canal  Discovery.
Daqui há pouco te envio meus apontamentos sobre o florescimento de Córdoba.
Espero que não fique bravo comigo.
Abraço.
Paulo

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