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O FATOR SÍRIA

            

     Quantas ditaduras há no Oriente Médio? Quantos governos absolutistas lá existem, onde as liberdades dos cidadãos são mínimas, onde as minorias são esmagadas, onde os direitos das mulheres são praticamente nulos? A Arábia Saudita é um governo desse tipo. Carrega todos os defeitos condenados por qualquer sociedade razoavelmente democrática. Os Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Omã e outros, todos monarquias absolutistas, que não admitem oposição, encarceram e torturam seus contrários quando não os matam, reprimem minorias étnicas e pouco se alcançou nesses países no que concerne aos direitos femininos.

    Estão aí, nesse cenário, razões mais do que suficientes para que os Estados Unidos e os países europeus tentem derrubar esses governos, dando suporte midiático aos opositores, alugando um canal de TV forte, com penetração em toda a região, assim como a Al-Jazeera e outras fazem contra a Síria. Além disso, armas pesadas seriam contrabandeadas através dos vizinhos desses países, assim como é feito contra a Síria.

     Mas a questão na Síria não é apoio à democracia. Não é porque se quer implantar um regime democrático na Síria que se fornece armamento de todos os calibres a uma “oposição” composta por mercenários vindos da Líbia, Egito, Líbano, Tunísia e países do Golfo. Ah, sim, é claro que há sírios no meio.

     E quem financia tudo isso? Catar e Arábia Saudita respaldados pelos Estados Unidos, União européia e – não se surpreendam – Israel! E quem executa os atentados com carros bombas contra o povo sírio? Também lhes peço que não se surpreendam. Al Qaeda! Sim, Al-Qaeda que se uniu nessa macabra e diabólica aliança com Estados Unidos, Europeus, árabes reacionários do Golfo e Israel. E é ela, Al- Qaeda,  que tem a função de recrutar os mercenários.

     Se formos comparar a Síria com os países que citei acima, constataremos o seguinte:

A Síria tem um dos menores índices de analfabetismo do Oriente Médio, as mulheres constituem 50% do corpo discente nas suas universidades, há um grande número de mulheres no congresso recém eleito. O pobre sírio não chega ao nível de miserabilidade que há em outros países e come três refeições por dia, o cidadão sírio tem direito à saúde e hospitalização gratuita, o jovem sírio tem a sua educação, desde a escola elementar até a sua formatura na faculdade, por um valor ínfimo que equivale a menos de um ano em uma universidade dos países vizinhos. Em termos de economia a Síria tem 0% de dívida externa e o imposto que o cidadão paga equivale a 5% de seu rendimento. A Síria conseguiu mudar de uma economia socialista para uma economia de mercado aberto sem que isso afetasse o custo de vida de seu cidadão.

     Na Síria – e só na Síria – vivem mais de um milhão de refugiados palestinos com todos os direitos de qualquer cidadão sírio. Durante a invasão Americana ao Iraque a Síria hospedou dois milhões de refugiados iraquianos e não os alojou em tendas, mas em casas de famílias.

     Na Síria – e só na Síria – você entra em um restaurante e encontra o presidente Bashar Al Assad jantando com sua família. Você senta à mesa ao lado e bate um bom papo com ele, como se estivesse conversando com um conhecido amigo.  Poderá haver troca de gentilezas entre você e ele: ele paga a sua janta ou você paga a dele, sem nenhum constrangimento.

     Na Síria – e só na Síria – você ouve alguém se identificar da seguinte forma: “sou xiita, minha esposa é alauíta, minha mãe é sunita, a esposa do meu irmão é cristã, o marido da minha tia é curdo e….”

     Mas então por que exatamente a Síria é o alvo dessas forças perversas? Bem, comecemos com o interesse geopolítico dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Ali, no Oriente Médio, está o petróleo que é o sangue que corre nas veias da economia mundial e ocidental,em particular. Um dos guardiões desse petróleo para o Ocidente chama-se Israel, a maior base militar americana do mundo. Aliás, a existência de Israel deve-se, em grande parte, à existência do petróleo na região. Ou vocês acham, ingenuamente, que se o Oriente Médio não tivesse petróleo Israel estaria ali?

     Para os países do golfo, a Síria é uma ameaça ao status quo deles. Uma eventual vitória da Síria, juntamente com seus aliados, contra Israel, representaria o fim dessas monarquias corruptas e apodrecidas. Portanto, Israel representa a segurança deles também.

     Portanto, o “pecado” da Síria é fazer parte do eixo de resistência à presença do estado sionista, apoiar a resistência palestina em todos os aspectos e dizer um enfático não ao projeto americano-israelense de um “Um Novo Oriente Médio”, como o chamava Condoleezza Rice, secretária de estado do governo Bush, mentora do projeto. Esse “Um Novo Oriente Médio” trazia em seu seio invasões e guerras civis nos países árabes e a subsequente divisão deles em paísecos subservientes à política americana e todos eles reconhecendo Israel.

     O eixo em questão, ou “A Frente de Resistência” como se autointitulam os componentes dessa coligação são os grupos de resistência palestina, o Hezbollah, a Síria e o Irã, que está se tornando uma formidável potência bélica. O Irã é a principal ameaça a Israel e está fornecendo armas ao Hezbollah e à resistência palestina na Faixa de Gaza. Pois aí está o cerne da questão! Como destruir essa corrente?

     Os sionistas de Israel reconhecem que tiveram duas derrotas contra o Hezbollah: em 2000 e 2006. Tanto é que várias cabeças rolaram em Israel após os conflitos de 2006. A ideia de Israel, dos Estados Unidos e das forças conservadoras dos países árabes, era acabar com o Hezbollah ou na pior das hipóteses empurrá-lo para trás do Rio Litani, de forma que não viesse a representar mais perigo para o estado sionista. Depois de trinta e poucos dias de guerra, centenas de soldados israelenses mortos e incontáveis tanques Merkava destruídos, Israel não conseguiu eliminar o Hezbollah, nem sequer empurrá-lo 40 quilômetrospara trás.  Mal entraram algumas centenas de metros dentro do território libanês e tiveram que bater em retirada. Ah, sim praticamente destruíram o Líbano com sua poderosa força aérea. É verdade.

     Mas o resultado disso tudo é que o Hezbollah ainda está lá, mais forte do que antes, com foguetes de longo alcance e de aguda precisão, a ameaçar bombardear Tel Aviv se os israelenses bombardearem Beirute.  Olho por olho, dente por dente!

     O Hamas, em Gaza, também está representando uma força de combate razoável no chão. É claro que os caças e os helicópteros israelenses destruíram a Faixa de Gaza, mas não conseguiram acabar com o Hamas que ainda está lá, mais forte do que antes e com foguetes de médio alcance vindos do Irã.

     Portanto, o negócio é cortar a corrente, extinguindo o regime da Síria. Daí não tem mais armas para o Hezbollah e nem para os palestinos. Cai o Bashar e entra um governo servil, cuja primeira atitude seria assinar um tratado de paz com Israel, cortar relações com o Irã, com o Hezbollah e com a resistência palestina. Isso dito pelo líder desse grupo armado que anda fazendo estragos na Síria, o tal de Burhan Ghaliun, que ninguém sabe de onde surgiu. 

     Síntese de toda a conversa, se a Síria cai, haverá uma grande festa em Washington e outra mais discreta na Europa; danças, bebedeira e fogos de artifício nas ruas de Tel Aviv; uma festança com bebedeira, mulheres de programa russas e tudo o mais em Riad, capital da Arábia Saudita e Doha, capital do Catar. Ah, eles não bebem e nem fornicam por serem muçulmanos? Não sejamos ingênuos!

     Se a Síria cai, os maiores perdedores de todos serão os palestinos. Perderão seu direito ao retorno às suas antigas cidades e aldeias antes de 1948, não terão mais um país independente e viverão em cantões isolados, cercados por forças israelenses por todos os lados. Al-Quds (Jerusalém) como capital? Nem em sonho. Tampouco servirão os palestinos como um exemplo a ser seguido pelos povos desses países conservadores para uma mudança radical, destruindo os tronos de seus monarcas vendilhões.  A “Frente de Resistência” derrotada, significa mais cem anos nos tronos para esses monarcas. Bom para os Estados Unidos e europa Ocidental e bom para Israel.

     Se a Síria cai, podemos pegar a questão palestina e jogá-la no lixo da História!  E o sangue de todos os mártires derramado durante todas essas décadas no enfrentamento à ocupação israelense terá sido em vão. Derramado de graça.

Gilberto Abrão

 

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FOTOS DA NOITE DE AUTÓGRAFOS DO “O MUÇULMANO E A JUDIA”

Queridos amigos e amigas,

Abaixo o link das foto do lançamento do livro em NH. O login é: livro;  a senha é: gilberto

www.rodrigofarias.com.br
login: livro
senha : gilberto

Beijos e abraços,

Gilberto Abrão

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Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

Neoarabismo ou Novo Oriente Médio

 

Desde a queda dos últimos califados árabes e a subsequente ascensão do Império Otomano que os povos árabes sonham com uma união que vá desde o Golfo Pérsico até o Oceano Atlântico. Ou seja, uma potência populacional e geográfica unindo os árabes da Ásia aos árabes do Norte da África.

Quando houve a Primeira Guerra Mundial, depois de mais de cinco séculos os árabes tiveram seu sonho renovado. Os ingleses e franceses prometeram aos árabes que dariam a eles a liberdade de fundarem o seu grande califado, caso ajudassem os aliados a combaterem os otomanos.  Os árabes, que padeciam sob o jugo dos turcos otomanos durante cinco séculos, estagnados na idade média, sem escolas, sem direitos, empobrecidos, distanciando-se cada vez mais de uma Europa que passava por transformações rápidas, acalentavam o sonho de reconquistar as glórias passadas, toparam a parada. Ajudaram os aliados a derrotar os otomanos.

Mas na hora de cumprir com o prometido, as nações ocidentais mandaram seus aliados árabes às favas. Exilaram o xeique de Meca que comandou dezenas de milhares de beduínos à reconquista de Damasco e dividiram entre si os territórios conquistados. Coube aos ingleses a parte do leão.

Por que houve essa traição? A resposta é simples. Já se sabia que o petróleo recém descoberto na região seria o sangue que haveria de correr nas veias da civilização ocidental. Não se admitiria que, um dia, os árabes voltassem a ser a potência que tinham sido na Idade Média, tendo sob seu controle aquele precioso e vital bem, presenteado a eles por Alá. 

Assim sendo, ingleses e franceses decidiram dividir os territórios conquistados em países dominados por clãs ou tribos e colocaram nos governos príncipes e reis de acordo com suas conveniências. Formaram-se, então, as corruptocracias e cleptocracias espalhadas por todo o Oriente Médio e apoiadas pelos países ocidentais, agora com um membro mais forte e mais guloso, que eram os Estados Unidos.

Aqui e acolá, entretanto, surgiam revoltas lideradas por intelectuais. Isso preocupava as potências ocidentais que temiam que, a qualquer momento, surgisse um líder suficientemente forte para catalisar toda a raiva e todas as frustrações dos povos árabes de forma a uni-los, política e geograficamente, e tornar realidade o velho sonho do califado do Golfo Pérsico ao oceano Atlântico.

Nesse ínterim, surgia na Europa o movimento sionista que pregava um país para os judeus. Entre as várias opções, falava-se na Patagônia, na Amazônia, no Congo. Eis que então a fome uniu-se com a vontade de comer. Ou seja, as potências ocidentais adotaram o sionismo como sua causa e viram no movimento uma forma de separar os árabes da Ásia dos árabes da África, além de se livrarem do que eles consideravam “o problema judeu”.  A Palestina caiu como uma luva. Separava a África da Ásia, tinha alguma conotação histórica e, logicamente, tinha ligações bíblicas com os judeus.  Estava resolvido o problema. Tirava-se a população autóctone, os palestinos, e davam-se as terras aos judeus europeus.

Desde então, os árabes têm sofrido mais humilhações e frustrações. A Palestina, como entidade, desaparecendo abocanhada aos pedaços grandes por Israel e os povos árabes sentindo-se impotentes, sob as mãos de ferro de seus governantes, que para agradar os Estados Unidos, alguns assinaram aviltantes acordos de paz com Israel (Egito e Jordânia) e outros simplesmente largaram de mão a causa palestina, a causa maior de todos os árabes.

Os povos árabes jamais engoliram essas desonras. Acrescente-se a isso os crescentes índices de pobreza, as altas taxas de desemprego e a falta de perspectiva das centenas de milhares de jovens que se formam nas universidades árabes e está pronta a combinação perfeita para uma bomba relógio.

Um desses jovens, Mohamed Ben Azizeh, formado em uma universidade da Tunísia, não encontrando trabalho para exercer a sua profissão, decidiu vender verduras em um carrinho para obter o sustento de sua família. Como ele não tinha licença para fazer esse tipo de trabalho um policial destruiu seu carrinho. Desesperado, Mohamed Ben Azizeh não achou outra alternativa a não ser imolar-se ateando fogo no seu próprio corpo. O que Ben Azizeh não sabia é que ele seria o mártir que poria fogo no estopim que haveria de explodir em muitos países árabes, tanto do Norte da África quanto da Ásia.

O interessante é que esses levantes todos foram e estão sendo organizados através das redes sociais da Internet, especialmente do Facebook. Os jovens revoltosos árabes estão sabendo usar a tecnologia moderna a seu favor, para combater seus ditadores e seus cleptocratas. No futuro, essas revoltas serão estudadas como as revoluções do Facebook, da Internet ou qualquer outro nome pertinente.

Mas que nome daremos ao componente filosófico-ideológico desses movimentos? Seria um panarabismo? Não; isso já foi tentado por Gamal Abdel Nasser na década de 60 e não deu certo. Talvez possamos chamá-lo de “Neoarabismo”, que seria um sentimento de orgulho por ser árabe, despertado depois de décadas de profunda letargia, ou, plagiando uma das inimigas dos árabes, a senhora Condoleezza Rice, secretária de estado no governo Bush, um “Novo Oriente Médio”. Só que esse Novo Oriente Médio seria de ideário diametralmente oposto ao que pregavam a senhora Rice e seu patrão.

Portanto, o Ocidente – em especial os Estados Unidos e Israel – devem repensar suas táticas de lidar com os árabes para o futuro. Se todas essas revoltas tiverem sucesso, os árabes haverão de sentar-se às mesas de negociação de cabeça erguida, com orgulho restaurado e não com submissão. Terão coragem e força suficientes para fazer demandas justas e longamente esperadas dos americanos e israelenses. Bom para os palestinos. Finalmente.

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A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

A guerra do pente de plástico e a foto da Confeitaria Damasco

Uma das coisas mais belas e gratificantes para um escritor, especialmente se ele é novato, é perceber que seu leitor torna-se um amigo interagente. É o meu caso. Fico feliz que meus leitores têm participado de uma forma interativa, discutindo o caráter das personagens, condenando ou elogiando umas e outras, comentando as passagens, criticando, indo à busca, inclusive, de fotos para comprovar a existência – ou não – de algum cenário do romance. Foi o que fez a minha leitora e agora minha amiga Samira, de Curitiba.

Samira tem sido tão especialmente participativa que se eu a tivesse conhecido antes de terminar o Mohamed, o latoeiro eu, certamente, teria acrescentado mais um episódio no romance.

Foi um quebra-quebra que aconteceu em Curitiba no fim da década de 50. O governo federal tinha lançado a campanha do “seu talão vale um milhão”. O consumidor reunia suas notas fiscais de compras, era-lhe dado um número ou vários, e com eles o cidadão concorria a um prêmio de um milhão de cruzeiros.

Em um modorrento sábado à tarde, um comerciante árabe se recusou a dar uma nota a um policial militar a paisana que comprou um pente de plástico. O custo do pente era abaixo do valor estipulado pelo governo para extração de uma nota fiscal. Portanto, o árabe se viu no direito de recusar o fornecimento da nota. A discussão começou e os dois acabaram brigando. Não sabendo que o freguês era um policial, o árabe, um homem grande e forte, agarrou o policial, levantou-o e o atirou na calçada. Foi o estopim para a grande “revolta” dos brasileiros contra os “turcos”. Ou poderíamos chamar esse episódio de “A guerra do pente de plástico”. Em poucos minutos, turbas iradas, às centenas, começaram a apedrejar, quebrar e saquear as lojas dos árabes em Curitiba. Inclusive alguns árabes mais modestos, que vendiam frutas em carrinhos, tiveram seus cabriolés virados de ponta cabeça e as frutas roubadas ou estragadas. Ai do árabe se ele abrisse a boca. Tinha que se afastar do local e deixar os revoltosos fazerem o serviço. Foram três dias de terror para a comunidade árabe. O levante só se amainou com a severa intervenção da PM.

Mas Samira continua a reescrever comigo os adendos ao Mohamed, o latoeiro. Eis que ela me surpreende e me manda uma foto de 1948, da Praça Tiradentes, com a estação dos bondes. Notem que a a primeira loja da esquerda para a direita é a famosa Confeitaria Damasco. Foi ali que Mohamed trabalhou como garçom e sorveteiro no final da década de 20, foi ali, no segundo piso onde ficava a residência do Zraik e a divina Matilde, que Kamel fez as pazes com Ismail Hammud depois de ter lhe dado um tiro por causa da Anice, foi ali que Dalila teve um chilique ao ver seu fogoso beduíno Abdo bu Râs pela primeira vez, foi ali que Daoud, o irmão mais velho de Khalil Abbud, convenceu Anis, o pai de Anice, a não matar Kamel e Mohamed, porque eles tinham raptado a donzela Anice para casar com Kamel.

Eis a  histórica confeitaria Damasco, que também testemunhou, já nos seus anos terminais, a Guerra do pente de plástico.

Obrigado, Samira habibti…

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O LATOEIRO EM SANTA CRUZ DO SUL

Foi um brunch maravilhoso lá em Santa Cruz do Sul, cidade que fica a duas horas de carro de Novo Hamburgo.  A livraria Iluminura é uma graça. Aconchegante, repleta de livros de todo tipo e com atendimento nota 10. Você vai até as prateleiras, folheia os livros, compra e depois vai lê-los, sentado à mesa, tomando um delicioso café com algum doce local.

Chegamos – eu e a Suzana – às 10h em ponto, no sábado do dia 22 de maio. Fomos bem recebidos pelos donos, o Braulio Vogt e a esposa dele, que, junto com as funcionários formam um “staff” muito competente e simpático.

Já tinha um pequena fila nos esperando. Comecei a receber as pessoas, autografar os livros, bater papo, falar do Mohamed, o latoeiro, tirar algumas fotos, que vocês poderão ver aí à direita, num belo trabalho da Printec. Entre um encontro e outro, eu beliscava alguns quitutes colocados à nossa disposição e bebia o café passado delicioso e cheiroso da Iluminura.

Saímos de lá às 15 horas. Conquistamos vários amigos e, de lambuja, fui convidado a participar da próxima feira do livro que eles terão lá em agosto.  Irei com muito prazer.

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Noite de Autógrafos em São Leopoldo

Amigos e amigas,

No dia 8 de abril, a partir das 18h, estarei no YÁZIGI de São Leopoldo para um encontro com vocês. A livraria NOBEL, que fica  na mesma rua do Yázigi, exatamente na frente, estará oferecendo o livro. Você sai da Nobel e basta atravessar a rua e já está no Yázigi para tomar um vinho ou um refri, pegar minha dedicatória com autógrafo e bater um papo sobre o livro e sobre os futuros livros.

Aguardo vocês lá.

Um Abraço,

Gilberto

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Como escrevi o “Mohamed, o latoeiro”

Como escrevi o “Mohamed, o latoeiro”?

O desejo de me tornar um escritor, um contador de histórias, vinha me perseguindo desde minha adolescência. Nos meus vintes, escrevia contos e historietas para o suplemento Jornal do Sinos, que vinha encartado no jornal Zero Hora. Uma década depois, escrevi alguns contos para o jornal Hamburgerberg, até quando esse excelente jornal deixou de existir. O Hamburgerberg era um jornal cultural, editado pela Fundação Ernesto Frederico Scheffel. .

Durante duas décadas e meia não escrevi uma linha sequer. Embora o sonho de escrever o meu primeiro romance me acalentasse e me acossasse por todos os lados, a batalha diária de ganhar a vida me era prioritária.   Na verdade, não queria morrer sem ter escrito o romance. Eu morreria frustrado e cobraria do Todo Poderoso lá no Paraíso. Além do mais, a professora Juracy Saraiva, doutora em literatura, durante quase três décadas, insistiu para que eu escrevesse um livro. Ela tinha lido minhas histórias no Hamburgerberg e achava que eu tinha algum talento. Professora-doutora Juracy, tornou-se, portanto, minha madrinha. Foi ela quem me empurrou para dentro do mundo da literatura..

De repente, num chuvoso dia de inverno de 2007, fui submetido a uma cirurgia e, então, surgiu o momento certo. Comprei um noutebuque e, incentivado pela Suzana, dei início às primeiras letras. 

Mas qual seria o tema?

O tema tinha que ser algo que eu dominava com certo desembaraço. Portanto, nada melhor do que algo pertinente à cultura e costumes árabes, com pitadas de história, que traçasse paralelos entre os dois mundos, sem ser crítico e nem tendencioso. Simplesmente, escrever pra narrar. Peguei emprestada a frase do Mia Couto, grande escritor da língua portuguesa, do Moçambique. A citação de Mia Couto está logo na terceira página: “Uma das mais belas funções da escrita é o convite a transgredir fronteiras. Algo se torna verdadeiro apenas porque o dizemos com saber poético.” Segui o norte do grande moçambicano. Ou pelo menos tentei.

Quando criança, eu ouvira numerosas histórias contadas pelos “patrícios” dos meus pais que visitavam nossa casa. Tive a oportunidade de ouvir muitos casos engraçados, outros muito tristes. Eles conversavam sobre a “terra” que deixaram para trás, as famílias, suas aventuras nas lides de mascates, seus dramas, suas vicissitudes e suas alegrias. Usei essa matéria prima, acrescida de alguma experiência pessoal, e comecei a montar a história.

Quando alguém pensa em imigrante árabe logo lhe vem à mente o mascate, o dono da loja de “turco”, o comerciante, o sujeito que acumulou fortunas trabalhando duro e honestamente. Ou não necessariamente. Quero dizer, a coisa mais corriqueira era encontrar um árabe mascate (quando ele recém chegava) ou que já tinha a sua loja e estava ficando rico. Mas encontrar um árabe que prestava serviços era uma raridade. Pessoalmente, em todos os meus anos de vida, conheci poucos. Um eletricista, um marceneiro, um encanador, um latoeiro, um carroceiro, um caminhoneiro e um motorista de lotação. E eram pobres, comparando com os ricos comerciantes.

Então, decidi escrever sobre o latoeiro, uma profissão estranha à maioria da população brasileira que tem abaixo de sessenta anos. Além do mais, muitos amigos e leitores me perguntavam o que fazia um latoeiro. Eu explicava. É o sujeito que andava pelas ruas da cidade tilintando sobre uma chapa de metal, geralmente uma frigideira, anunciando os seus serviços às donas de casa. Ele consertava panelas, colocando novos cabos e novos fundos de zinco ou alumínio, fazia canecas das antigas latas de óleo, consertava regadores, leiteiras, bules, etc. Carregava uma caixa de ferramentas muito pesada, cheia de chapas de zinco, alumínio, ferro de soldar, fogareiro, macete, barras de estanho, e uma dúzia de outras ferramentas. “Seria um funileiro?”, perguntavam os leitores do Rio Grande do Sul. “Quase”, eu respondia. Há uma sutil diferença entre um funileiro e um latoeiro. O funileiro é mais aprimorado. Faz e instala calhas, tem equipamento e maquinário mais sofisticados e geralmente está instalado em sua funilaria, atendendo sua clientela. . Já o latoeiro mantém o seu espírito nômade. Cada dia em um bairro ou numa rua. Não gosta de ficar atrás de um balcão. Mas nada impedia um latoeiro de ser alçado a um nível social mais superior, tornando-se um funileiro. Assim era em Curitiba, assim foi com Mohamed.

O nosso herói, ou melhor, o anti-herói, se vê, repentina e circunstancialmente, arremessado a um mundo diferente. Um adolescente camponês, pastor de cabras, flautista tocador de “mijuez”, cujo mundo estava circunscrito a meia dúzia de aldeias encravadas nas íngremes Montanhas Alauítas da Síria, defrontava-se com um gigantesco país católico, cujos costumes se chocavam com os dele. A questão para Mohamed era se devia comer ou não carne de porco; devia ou não beber uma cachacinha com os caboclos. Em seguida, confrontava-se com as mulheres do país que, embora estivéssemos ainda na década vinte do século passado, gozavam de liberdades muito amplas em comparação com as mulheres do seu país de origem. Outros confrontos, outros dilemas e dúvidas assolariam a vida de Mohamed.. Casar ou não numa igreja, batizar ou não um filho. Nosso anti-herói sofreu, amou, divertiu-se, criou filhos, conflitou-se, envelheceu, apaziguou-se e abrasileirou-se.

Sobre a massa, coloquei uma pitada das minhas experiências pessoais, tais como as histórias que ouvia, na minha infância, narradas por meu pai e seus amigos, minha meninice no Líbano, meu serviço militar e minha ida à Faixa de Gaza como soldado do 13º Batalhão de Suez. Busquei um bocado de pesquisa sobre a Curitiba de antigamente.

Escrevia nas madrugadas, nos fins de semanas, nos feriados, nos sábados e domingos. Escrever tinha se tornado uma obsessão.  Estava cada vez mais envolvido pela história, arrastado nela pelas mãos do nosso anti-herói. E a professora Juracy a analisar e a criticar e elogiar o texto.

Finalmente, em fevereiro de 2009, a senhora Lourdes Magalhães, diretora da Primavera Editorial, e sua equipe leram os meus originais e gostaram.. Em setembro de 2009 “Mohamed, o latoeiro” foi lançado em São Paulo, no aniversário da editora, com uma noite de autógrafos..  “Mohamed, o latoeiro” foi o bolo de aniversário.

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