Mohamed, o latoeiro

“Esta história é uma mescla de realidade e ficção. Deixo a seu bel-prazer, leitor, o ato de determinar o que é realidade e o que é ficção. Divirta-se.” A provocação de Gilberto Abrão, autor de “Mohamed, o latoeiro”, é um convite para “ingressar” em um romance singular que compõe um retrato emocionante da imigração árabe no Brasil – as marcas na cultura brasileira, os amores e dilemas de imigrantes árabes que enriqueceram a cultura do país, acrescentando “condimentos” no caldeirão ético nacional. O lançamento da Primavera Editorial promete encantar leitores ávidos por informações sobre a presença da comunidade árabe no País.

“Mohamed, o latoeiro” marca a estreia do escritor Gilberto Abrão, que aos 10 anos foi enviado ao Líbano pelos pais para estudar o idioma árabe e aprender mais sobre a cultura e a religião muçulmana. Educado em dois mundos distintos, o árabe e o brasileiro,  o autor usou sua história de vida para transpor para o papel a trajetória de Mohamed, um jovem imigrante sírio que chega ao Brasil no início do século passado. Por meio da trajetória de Mohamed, Gilberto Abrão mostra com maestria que os pontos decisivos da existência humana não decorrem dos fatos, sim de revisões que usamos para falar da própria vida.

Mohamed Ibrahim Othman é latoeiro, mas poderia ser pastor de cabras, vendedor de frutas, mascate. Longe de ser um herói, o protagonista é um homem com profundas contradições e dilemas; uma pessoa que traz as marcas da transição de uma sociedade conservadora para uma estrutura social contemporânea, globalizada. A história de Mohamed se passa no cotidiano, espaço e tempo em que amamos, temos filhos, fazemos amigos e nos separamos. O ponto de partida é o vilarejo natal, onde a vida era regrada pelas tradições familiares e árabes. Ao chegar no Ocidente, o protagonista se depara com uma realidade muito diferente da relatada por parentes que já viviam aqui. Diante do desafio de conseguir algum tipo de trabalho, Mohamed fez de tudo um pouco até estabelecer-se como latoeiro. Conforme os anos iam passando, a saudade da família na Síria só aumentava o desejo de voltar para o local da infância. Entretanto, atrelado ao dia a dia, foi criando raízes na nova terra e misturando a cultura árabe com a brasileira.

O choque cultural e religioso é apenas um vértice da trajetória de Mohamed e de Gilberto Abrão (nascido em Curitiba, em 1943) – que fez o caminho inverso ao do protagonista, indo do Brasil ao Líbano. Educado em um bairro simples de Curitiba, habitado por imigrantes poloneses, ucranianos, italianos, alemães e alguns sírio-libaneses, aos 10 anos Gilberto Abrão foi enviado pelo pai ao Líbano com a missão de aprender o idioma árabe, a cultura e a religião muçulmana. “Voltei aos 14 anos, fui estudar à noite e trabalhar durante o dia. O colégio não tinha boa fama, pois aceitava alunos já crescidos, rejeitados ou expulsos de outras escolas. No entanto, o prédio anexo à escola abrigava a Faculdade de Direito de Curitiba, onde acompanhei brilhantes conferências de renomados intelectuais e polítcos, de diferentes vertentes e posições partidárias, das décadas de 1950 e 1960”, detalha o autor. “Rato de biblioteca”, Abrão leu os grandes clássicos da literatura nacional e mundial – de Machado de Assis a Franz Kafka – além velhos jornais de Angola e Moçambique.

Em 1962, o autor se alistou como voluntário das Forças de Emergência das Nações Unidas para guarnecer as fileiras de soldados que atuavam na fronteira entre o Egito e Israel. Por ser fluente em árabe e inglês permaneceu por 14 meses na Faixa de Gaza. Apaixonado por uma gaúcha, retornou a Cutiriba em janeiro de 1965 para lecionar inglês em uma grande escola de idiomas. No ano seguinte, após obter o licenciamento para abrir uma franquia dessa escola de inglês, migrou para a cidade de Novo Hamburgo (RS). No início da década de 1970 iniciou o “namoro” com a literatura ao colaborar com o jornal Zero Hora, no qual publicava crônicas e contos na coluna Sol e Chuva. “Até me aventurei a tecer comentários políticos e tive a honra de ser censurado pela direção do jornal, que nessas ocasiões colocava anúncios em substituição à coluna”, conta.

Trechos do livro

Página 16

(…) “Havia mais de quatrocentos anos que a Síria estava sob o domínio do Império Otomano. Em todo o extenso território Sírio, que incluía os atuais Síria, Líbano, Jordânia, Israel e territórios palestinos, havia revoltas cada vez mais violentas. O povo sofria com o confisco contínuo de suas lavouras, com a falta de acesso às escolas para a esmagadora maioria da população e com a arrogância dos turcos. Embora os turcos tivessem, como os árabes, a religião mulçumana, seu domínio era extremamente violento. As cadeias turcas estavam repletas de prisioneiros árabes que cometeram crimes tão insignificantes quanto falar mal do sultão em um café.”

Página 20

(…) “Ibrahim gostou de ser chamado de Abu Mohamed. Era sinal de respeito. Segundo a tradição árabe, todo homem deve ter pelo menos um filho para que haja continuação do nome. Quatro ou cinco, melhor ainda: garante a preservação do nome de forma mais ampla. As meninas não dão prestígio, em vez disso, dão preocupação e podem até desonrar o nome da família. Fátima tinha dado a Ibrahim uma filha, a menina Yemma, que ele adorava. Mas estava ansiosamente esperando por um menino e, finalmente, viera Mohamed, graças a Deus!”

Página 31

(…)  “Em 1914, aconteceu o que todos esperavam desde antes da queda do sultão Abdul Hamid: o Ocidente e a Rússia declararam guerra ao Império Otomano e à Alemanha. Começou, então, o reino do terror, do confisco, da fome, da miséria, das mortes por uma causa que não dizia respeito aos árabes, do êxodo em massa, do enforcamento e da crucificação de dezenas de homens de uma mesma aldeia. Nessa época, Mohamed, já com seis anos, era levado ao xeique para aprender o Alcorão.”

Página 58

(…) “Décimo mês, tishrin al-Awal, de 1918. Aos dez anos, Mohamed testemunhou uma grande festa na aldeia e em todo o território alauita. Os turcos tinham sido derrotados e, finalmente, expulsos da Síria. Exatamente no mês em que ele completava dez anos, as tribos de beduínos do xerife Hussein Ibn Ali, comandadas pelo oficial britânico Thomas Edward Lawrence, ou Lawrence da Arábia, tomavam Damasco. Todos os árabes festejaram a grande derrocada do Império Otomano. Tinham esperanças que a França e a Inglaterra lhes trariam liberdade, educação e prosperidade. Seria então restabelecido o grande califato árabe-islâmico, do golfo Pérsico até o Mediterrâneo e, quem sabe, até o Egito e em todo o norte da África.

Página 172 e 173

(…) “Dez dias após o embarque em Lataquia, os passageiros do Corintho passaram por Port Said no Egito, Pirineus na Grécia, Nápoles e Gênova na Itália e, finalmente, chegaram à Marselha. Ali, deixaram o barco grego Corintho, passariam duas noites em um hotel e embarcariam dois dias depois em um navio francês que os levaria ao seu destino final, as Américas. Em cada uma das cidades a que o navio aportada, Mohamed e Abdo Cabeção se surpreendiam com as novas coisas que viam. Ficavam maravilhados com algumas coisas e chocados com outras. O número de automóveis, por exemplo, assustava-os. Os casais caminhando pelas ruas abraçados, trocando beijos aos olhos de todos, chocava-os. A visão das ruas limpas deixava-os encantados. As mulheres loiras e cheirosas que entravam e saíam das lojas, com os alvos colos aparecendo, deixavam atordoados os dois jovens viajantes. Eles olhavam tudo e tudo estranhavam naquele mundo tão diferente. Seria o Brasil assim?”

Página 204

(…) “De repente, ouvem o som familiar de uma mijuez*. Lá estava Mohamed, encostado à parede da estação, vestindo um elegante terno listrado, com o detalhe do lenço branco, displicentemente colocado no bolsinho do paletó, fazendo com que as pontas caíssem do bolso, como pétalas de uma grande rosa madura. O chapéu de feltro e o sapato bicolor realçavam a elegância do traje. Mohamed tinha avistado o grupo de árabes, reconhecendo neles Kamel, Khalil e Abdo bu Ras que, impacientemente, o procuravam com os olhos, enquanto ele se deliciava a observá-los distantes dele uns cem metros. Tirou, então, da mala a mijuez e começou a tocar. Os acordes ressoaram por todo o pavilhão da estação.

*Mijuez: tipo de flauta confeccionada com bambu.

Página 210

(…) “Nos primeiros dias após a chegada de Mohamed na Confeitaria Damasco, Kamel Khalil, Hussein al-Omairi e Abdo bu Ras, este quando estava de folga do trabalho, fizeram uma incursão visitando todos os árabes que tinham vindo no final do século dezenove e início do século vinte. A maioria deles estava no Brasil há trinta, quarenta ou cinquenta anos. Os mais antigos tinham chegado ao Brasil ainda no Império; na maior parte eram cristãos que haviam fugido da opressão otomana e vinham com o laissez-passer turco. Daí a razão porque os árabes, chegados nessa época, cristãos ou mulçumanos, eram chamados de turcos, embora não soubessem dizer mais do que meia dúzia de palavrões na língua turca.”

6 Comentários

6 opiniões sobre “Mohamed, o latoeiro

  1. Maria Bernardete de Oliveira

    Buongiorno sig. Abrao, tanti auguri anche se non ho avuto modo de leggere il tuo libro.
    Querido Gilberto, morro de curiosidade de ler
    o tao falado livro.Pedirei a Rita pra me mandar
    a Roma uma copia. Congratulaçoes pelo sucesso que estas tendo.
    Um grande abraço da Berna.

    • Querida Berna,

      Quando a Rita comprar, peça a ela pra me telefonar para marcarmos uma hora e eu colocar uma dedicatória pra ti.

      Um grande e saudoso beijo,
      Gilberto

  2. Lu Magalhães

    Juracy Saraiva enviou seu apoio a Gilberto Abrão:

    Gilberto,
    Eu adorei ler o teu relato. Estou cada vez mais convencida de que deves continuar a escrever. Inscreve teu livro no Jabuti e, se receberes o prêmio, me convida para que eu possa te aplaudir.
    Um abraço, Juracy”

    • A Prof. Juracy Saraiva é rsponsável por eu ter escrito o “Mohamed, o latoeiro”. Foi ela que me incentivou, me estimulou e não largou do meu pé até que viu o livro concluído.
      Portanto, Juracy, se um dia eu ganhar algum prêmio – qualquer prêmio – tu estarás na primeira fila e receberás o primeiro abraço.

  3. Gilton Marne

    Lí Mohamed, o latoeiro no verão de 2011/2012. Minha opinião é que este é um ótimo livro, com riqueza de detalhes sobre a geografia, costumes, gastronomia e, é claro, sobre a religião muçulmana, narrada através da história de um personagem que, como tantos outros, ajudou a construir o Brasil que temos hoje.

    Confesso que em alguns momentos, devido ao excesso de pormenores, o livro se torna prolixo. A exemplo disso cito as tantas descrições das cartas enviadas entre alguns personagens do livro, sempre a narrando por completa, ou, no mínimo, a introdução dela. Ou ainda a descrição de receitas típicas da região. Tenho a impressão (com visão de leitor) que o autor quis ter a certeza de que nós leitores absorvamos essas riquezas, o que de fato se aconteceu comigo.

    Agora, quero também deixar claro que o exposto acima não invalida a leitura do livro. Pelo contrário. Vale a pena entrar em um mundo pouco conhecido pelos ocidentais, onde o respeito pelo próximo e o cultivo das tradições estão muito presentes. Mohamed, o latoeiro será seu ingresso para isso.

    Aproveito também para recomendar o Muçulmano e a Judia, segundo livro de Gilberto Abrão, no qual pela minha opinião o autor prende ainda mais o leitor à trama, deixando-o com “gostinho de quero mais”.

    Aguardo os próximos lançamento,

    Um abraço,

    Gilton Marne

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