Em vários escritos eu já expliquei sobejamente a razão da existência de Israel onde é o território da Palestina histórica. Mas vou mencionar, novamente, algumas das razões principais já citadas.
Depois da 1ª Guerra Mundial, com a derrota dos Otomanos, os aliados – Inglaterra e França – decidiram dividir todos os territórios árabes que pertenciam ao Império Otomano. Uma gigantesca área que ia do Golfo Pérsico até o Oceano Atlântico. Ou seja, um pedaço do globo terrestre que começava lá em baixo na Península Arábica, onde é o Iêmen, passando pela atual Arábia Saudita, subindo ao Iraque, Síria, Palestina Egito, atravessando o rio Nilo, até a Mauritânia.
Receando que aquele imenso território pudesse se unir um dia e formar um novo califado, a Inglaterra e a França decidiram aplicar o conceito de imperador romano Julio Cesar “divide et impera”, ou seja, dividir para governar. O receio dos europeus pela união dos árabes cresceu com a descoberta do petróleo na região. Havia o temor que algum líder árabe, nacionalista e carismático, pudesse movimentar as massas para uma união, como veio a acontecer com Gamal Abdel Nasser do Egito.
Só que Nasser veio muito tarde. Governou seu país de 1954 a 1970, quando faleceu. Fez várias tentativas para unir os árabes, mas todas foram em vão. Embora as massas árabes o adorassem, os governos dos países divididos e recém-criados, especialmente as monarquias, já estavam “contaminadas” com o vírus do orgulho tribal, atávico nos árabes até hoje. Esse apego à tribo, ao clã, supera o conceito de pátria entre os árabes. É muito difícil superar essa barreira que está sendo muito bem explorada pelas potências ocidentais que determinam as políticas das monarquias árabes.
Bem antes das duas guerras mundiais acontecerem, já no final do século XIX, um grupo de judeus não religiosos, liderados por Theodor Herzl, fundou o movimento sionista que tinha como objetivo criar um país só para os judeus. Essa ideia agradava aos europeus, que viam os judeus como nocivos aos seus países e os culpavam por todos os problemas de qualquer ordem, que existiam no continente.
Na verdade, os judeus vinham sendo perseguidos há séculos pelos mais variados tipos de governo na Europa. Desde quando os visigodos dominaram a Península Ibérica os judeus eram perseguidos e maltratados, tanto foi que eles ajudaram os árabes a conquistar a Ibéria no início do século VIII. Muitos autores judeus afirmam que um dos períodos áureos do judaísmo foi a época do domínio muçulmano na Espanha e Portugal.
A perseguição aos judeus continuou através dos séculos. Basta olharmos para as inquisições que aconteceram na Idade Média, as torturas para forçar a conversão deles ao catolicismo, a queimação em fogueiras e a expulsão deles da Espanha, junto com os árabes, pelos reis católicos.
Mesmo na literatura mundial vemos uma visão anti-judaica claramente exposta, por exemplo, na obra O Mercador de Veneza, do grande poeta e dramaturgo inglês Wiliam Shakespeare. Nessa obra do maior escritor da língua inglesa, o agiota judeu Shylock é pintado como um ser abominável e cruel. A narrativa do bardo inglês conta que quando Shylock foi procurado pelo mercador falido, Antonio, para pedir dinheiro emprestado porque queria cortejar sua amada Portia, o agiota condicionou o empréstimo a que Antonio pagasse com pedaços de sua própria carne.
Por fim, veio o nazismo que foi a gota d’água. Na realidade, o nazismo expôs à luz do dia aquilo que estava oculto no DNA europeu. Ou seja, a verdade de que os judeus nunca foram benquistos na Europa.
Portanto, como podemos observar, três fatores se juntaram para a fundação de Israel. Primeiro, a decisão das potências ocidentais, vencedoras da 1ª guerra mundial, de dividir os países árabes. Segundo, o movimento sionista que pregava a fundação de um país só para judeus, de forma que ficassem livres das perseguições na Europa. Terceiro fator, o desejo camuflado da Europa se livrar dos judeus.
Inicialmente, as quatro opções para o estabelecimento de um país para os judeus eram: 1) um pedaço da Amazônia brasileira; 2) uma parte da Patagônia; 3) um território na África que seria hoje Uganda. Mas prevaleceu a 4ª opção que era a Palestina histórica.
Por que a escolha recaiu sobre a Palestina? Em primeiro lugar, o país judeu seria enxertado como uma cunha a dividir os árabes da Ásia menor dos Árabes do Norte da África, impedindo-os de se unirem territorialmente. Armado, financiado e instruído pelos ingleses, franceses e, mais adiante, pelos americanos, Israel se tornaria uma poderosa entidade para policiar os árabes, impedindo qualquer levante contra os exploradores ocidentais.
Com a entrada dos Estados Unidos como forte protagonista no Oriente Médio, logo após o término da 2ª Guerra Mundial, Israel transformou-se praticamente no 52º estado americano. Está distante do continente assim como estão o Alaska e o Havaí. Tem língua e leis diferentes, mas goza da mesma proteção que qualquer estado americano.
Ou talvez possamos chamá-lo de um estado associado como é Porto Rico. Ou uma base militar, como o são a Ilha de Guam, a Samoa Americana ou as Ilhas Virgens. O fato é que Israel é a mais poderosa base americana no planeta. Por isso, cada bomba, cada avião, cada peça de armamento e munições que a entidade sionista gasta ou perde, é imediatamente reabastecida pelos americanos.
Portanto, se Israel não quer que os palestinos tenham o seu país independente, os Estados Unidos dizem amém. Se Israel bombardeia as cidades palestinas, prende e tortura homens, mulheres e crianças palestinas, os americanos fecham os olhos, porque “Israel tem o direito de se defender!”. Se Israel abocanha cada vez mais do pouco que restou do território palestino, expulsa os palestinos, demole suas casas, queima suas plantações, pratica o apartheid, os americanos não dão a mínima.
E a Europa? A Europa Ocidental é a cadelinha dos Estados Unidos. O que os americanos dizem a Europa concorda incondicionalmente. Isso porque toda a Europa, e a Alemanha especialmente, sofre de um incurável complexo de culpa pelo sofrimento que causaram aos judeus durante séculos. Assim sendo, o genocídio e a limpeza étnica que Israel causa aos palestinos é uma espécie de catarse europeia e uma expiação de seu pecado maior.
E a ONU? A Organização das Nações Unidas não é uma organização de nações unidas. Nunca foram unidas. Quem manda ali dentro são os Estados Unidos. A maioria obedece. Por enquanto.
E os palestinos. Os libaneses e todos os árabes vão pagando pelos pecados dos europeus.
